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A urna paralela: O BBB como sintoma da nossa neurose nacional

Esqueça as pesquisas do Datafolha. Se você quer entender o que realmente divide o Brasil — do racismo estrutural à luta de classes —, precisa olhar para o Gshow, não para Brasília.

MC
Myriam CohenJournaliste
14 février 2026 à 02:013 min de lecture
A urna paralela: O BBB como sintoma da nossa neurose nacional

Tudo começou com um silêncio constrangedor no grupo da família no WhatsApp. Não foi uma discussão sobre a taxa de juros, nem sobre a última gafe presidencial. O que calou a "Família Buscapé" na última terça-feira foi a eliminação de um participante que metade do grupo considerava um "menino de ouro" e a outra metade, um "manipulador tóxico". O sofá da sala, antes um refúgio de descanso, virou trincheira.

Bem-vindo ao coliseu moderno. O Big Brother Brasil deixou de ser entretenimento há muito tempo (se é que algum dia foi apenas isso) para se tornar o laboratório social mais cruel e preciso do país.

"O BBB não cria monstros. Ele apenas oferece um megafone para os monstros que já vivem na nossa sala de estar."

Quando falamos do "bloco do paredão", não estamos falando apenas de torcidas organizadas por adolescentes desocupados (um mito que os mais velhos adoram repetir para se sentirem superiores). Estamos falando de identificação projetiva. Votar no BBB virou a forma mais rápida de fazer justiça com as próprias mãos em um país onde a impunidade é a regra.

Veja o padrão: o público brasileiro raramente premia o melhor jogador estratégico. Nós premiamos o sofredor. Aquele que foi humilhado, excluído, o "coitadinho" que representa nossa própria sensação de impotência diante do sistema. É a jornada do herói cristão, televisionada e monetizada. Se o participante chora e diz que foi perseguido, o Brasil o abraça. Por quê? Porque todos nós nos sentimos perseguidos por algo — pelo chefe, pelo banco, pelo governo.

A polarização binária

O problema é que essa dinâmica reflete a nossa incapacidade atual de lidar com nuances. No paredão, ou você é "Fada" ou é "Lixo". Não existe meio-termo. Essa visão maniqueísta, que destrói reputações em segundos, é o mesmo combustível que queima nas redes sociais durante as eleições políticas.

As fissuras sociais ficam expostas na carne viva. Quando um participante preto é julgado com um rigor moral dez vezes superior ao de um participante branco que cometeu o mesmo erro, o programa esfrega na nossa cara o racismo que juramos não ter. Quando uma mulher é eliminada por gritar, enquanto o homem é aplaudido por ser "assertivo", o sexismo sai do armário em horário nobre.

👀 Por que somos viciados em cancelar?

O cancelamento no BBB funciona como um ritual de purificação coletiva. Ao eliminar o "vilão" da semana com 90% dos votos, a sociedade sente um alívio momentâneo, como se tivesse extirpado o mal do mundo. É uma catarse barata: punimos o boneco na TV porque não conseguimos punir os vilões reais da nossa vida cotidiana.

O voto popular no reality é, no fim das contas, um grito. Um grito desordenado, muitas vezes hipócrita, mas ensurdecedor. As torcidas se organizam como milícias digitais, com hierarquia, comando e metas de votação, mimetizando a guerra de narrativas que domina o Twitter/X. O que muda de verdade na vida de quem vota 500 vezes numa noite? Absolutamente nada. Mas, por alguns minutos, aquela pessoa sentiu que tinha o poder de decidir o destino de alguém. E num país onde tantos se sentem invisíveis, esse poder é a droga mais viciante que existe.

MC
Myriam CohenJournaliste

Le pouls de la rue, les tendances de demain. Je raconte la société telle qu'elle est, pas telle qu'on voudrait qu'elle soit. Enquête sur le réel.