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Bonner e o trono de vidro: O que (não) se diz nos bastidores do JN

Ele não é apenas um âncora; é uma instituição que luta para não virar peça de museu. Entre a gravata impecável e o desgaste da polarização, investigamos o crepúsculo do editor-chefe mais poderoso do país.

MC
Myriam CohenJournaliste
21 février 2026 à 02:013 min de lecture
Bonner e o trono de vidro: O que (não) se diz nos bastidores do JN

Se as paredes da redação no Jardim Botânico falassem, elas não contariam notícias; elas sussurrariam sobre o medo da irrelevância. William Bonner, o homem que há quase três décadas dita o ritmo cardíaco da informação no Brasil, ocupa um espaço que vai muito além da cadeira ergonômica de editor-chefe. Ele se tornou, voluntária ou involuntariamente, o último bastião de um modelo de jornalismo que a geração TikTok encara como arqueologia.

Quem circula pelos corredores da Vênus Platinada percebe uma mudança na temperatura. Não é apenas o ar-condicionado siberiano dos estúdios. Há uma tensão silenciosa. A figura de Bonner, com seus cabelos grisalhos milimetricamente penteados (e agora, às vezes, uma barba cultivada para dar um ar de estadista cansado), carrega o peso de ter sido o rosto da polarização.

👀 Quem realmente tem chances na sucessão?
A bolsa de apostas interna flutua mais que o dólar. Cesar Tralli é o nome da eficiência técnica e carisma paulistano, o "genro ideal". Mas há quem defenda, nos cafezinhos mais discretos da diretoria, que a sucessão não deve ser masculina. Renata Lo Prete? Talvez intelectual demais para o horário nobre massivo. O segredo? A Globo não procura um novo Bonner. Ela procura alguém que consiga falar com o Brasil que parou de assistir TV.

Durante os anos de chumbo da retórica digital (2018-2022), Bonner deixou de ser o narrador para virar personagem. O "Iniciado" sabe que isso incomoda. A bancada, projetada para ser um altar de neutralidade, virou trincheira. E o custo pessoal disso é visível.

Mas o que poucos discutem abertamente é a armadilha da própria credibilidade. O esforço para humanizar a figura — as piadas sobre ser o "tio do pavê" nas redes sociais, as quebras de protocolo ao vivo — soa, para os mais cínicos, como um pedido de socorro. É a TV aberta gritando: "Ei, nós ainda somos relevantes, somos gente como a gente". Será mesmo?

"O problema não é substituir o homem, mas convencer o público de que a cadeira onde ele senta ainda importa no meio do caos algorítmico."

O desafio de Bonner não é ler o teleprompter sem gaguejar. Isso ele faz dormindo. O desafio é manter a aura de autoridade quando metade do país busca a "verdade" em grupos de mensagens criptografadas. O editorialista de hoje não compete com o jornal concorrente; compete com a dopamina do scroll infinito.

Quando as luzes se apagam após o "boa noite", a dúvida que paira não é sobre a manchete do dia seguinte. É sobre quanto tempo o formato de "Voz de Deus" ainda sustenta a atenção de uma sociedade fragmentada. Bonner é um gigante. Mas até os gigantes precisam saber a hora de descer do palco antes que a plateia vá embora.

MC
Myriam CohenJournaliste

Le pouls de la rue, les tendances de demain. Je raconte la société telle qu'elle est, pas telle qu'on voudrait qu'elle soit. Enquête sur le réel.