Économie

Ceará e a "Arábia Saudita" Verde: Quem paga a conta da festa europeia?

Bilhões em investimentos, maquetes futuristas no Porto do Pecém e um slogan que vende bem em Davos. Mas a poucos quilômetros dos holofotes, a revolução do Hidrogênio Verde tem gosto de terra seca e cheiro de expropriação.

SG
Stéphane GuérinJournaliste
17 janvier 2026 à 20:013 min de lecture
Ceará e a "Arábia Saudita" Verde: Quem paga a conta da festa europeia?

Se você olhar apenas para os PowerPoints apresentados em reuniões com investidores estrangeiros, o Ceará está prestes a se tornar Wakanda. A promessa é sedutora: transformar sol e vento — recursos que o Nordeste tem de sobra (e de graça) — no combustível do futuro, o Hidrogênio Verde (H2V). O governo local e federal batem palmas, assinando memorandos de entendimento como se fossem autógrafos.

Mas espere um pouco. Desde quando multinacionais europeias atravessam o oceano por pura benevolência climática?

A narrativa oficial pinta um cenário de "ganha-ganha". No entanto, quando aplicamos uma lupa cética sobre os mapas e contratos, o que vemos se assemelha perigosamente a um neocolonialismo pintado de verde. O modelo é extrativista: usamos nossos recursos naturais, ocupamos nossas terras, consumimos nossa água (escassa), para exportar energia limpa para que a Alemanha e a Holanda possam bater suas metas de carbono sem sujar o quintal deles.

"Não chamem de desenvolvimento sustentável o que, na prática, é apenas uma terceirização dos custos ambientais do Norte Global para o Sul Global."

A matemática hídrica é a primeira conta que não fecha. Para produzir hidrogênio verde através da eletrólise, é preciso água. Muita água. Estamos falando de um estado onde a seca não é um evento, é uma estação do ano. Enquanto se discute dessalinização para a indústria (com custos energéticos altíssimos e impacto na vida marinha), comunidades inteiras no interior ainda dependem de carros-pipa.

E quem está perdendo o chão? Literalmente.

A Promessa do HubA Realidade no Solo
Geração de milhares de empregos técnicos.Empregos temporários na construção; operação automatizada requer pouca mão de obra local.
Uso de terras "improdutivas".Cercamento de terras de uso comum de comunidades tradicionais, quilombolas e pescadores.
Energia limpa para o Brasil.Foco primário na exportação (amônia verde) para o mercado europeu.

As comunidades de pescadores artesanais e povos originários nas regiões costeiras e na Caatinga já sentem a pressão. A corrida para instalar parques eólicos e solares — necessários para alimentar a produção do H2V — está criando "cercas de vento". Onde antes se transitava livremente para pescar ou plantar, agora há seguranças privados e torres gigantescas zumbindo dia e noite.

É curioso (para não dizer trágico) que a transição energética, vendida como a salvação do planeta, esteja replicando a lógica das antigas plantations. Troca-se a cana-de-açúcar pelas pás eólicas, mas a dinâmica de poder permanece: o lucro é privatizado e enviado para fora, enquanto o impacto social e a alteração da paisagem ficam para quem mora ali.

O Ceará corre o risco de se tornar uma bateria gigante para o mundo rico. E sabemos o que acontece com baterias quando elas não servem mais: são descartadas. Se não houver uma contrapartida social real, blindada por legislação e não apenas por promessas de campanha, a "nova economia" será apenas a velha exploração com um logotipo novo.

SG
Stéphane GuérinJournaliste

L'argent ne dort jamais, et moi non plus. Je dissèque les marchés financiers au scalpel. Rentabilité garantie de l'info. L'inflation n'a aucun secret pour moi.