Ceará e a "Arábia Saudita" Verde: Quem paga a conta da festa europeia?
Bilhões em investimentos, maquetes futuristas no Porto do Pecém e um slogan que vende bem em Davos. Mas a poucos quilômetros dos holofotes, a revolução do Hidrogênio Verde tem gosto de terra seca e cheiro de expropriação.

Se você olhar apenas para os PowerPoints apresentados em reuniões com investidores estrangeiros, o Ceará está prestes a se tornar Wakanda. A promessa é sedutora: transformar sol e vento — recursos que o Nordeste tem de sobra (e de graça) — no combustível do futuro, o Hidrogênio Verde (H2V). O governo local e federal batem palmas, assinando memorandos de entendimento como se fossem autógrafos.
Mas espere um pouco. Desde quando multinacionais europeias atravessam o oceano por pura benevolência climática?
A narrativa oficial pinta um cenário de "ganha-ganha". No entanto, quando aplicamos uma lupa cética sobre os mapas e contratos, o que vemos se assemelha perigosamente a um neocolonialismo pintado de verde. O modelo é extrativista: usamos nossos recursos naturais, ocupamos nossas terras, consumimos nossa água (escassa), para exportar energia limpa para que a Alemanha e a Holanda possam bater suas metas de carbono sem sujar o quintal deles.
"Não chamem de desenvolvimento sustentável o que, na prática, é apenas uma terceirização dos custos ambientais do Norte Global para o Sul Global."
A matemática hídrica é a primeira conta que não fecha. Para produzir hidrogênio verde através da eletrólise, é preciso água. Muita água. Estamos falando de um estado onde a seca não é um evento, é uma estação do ano. Enquanto se discute dessalinização para a indústria (com custos energéticos altíssimos e impacto na vida marinha), comunidades inteiras no interior ainda dependem de carros-pipa.
E quem está perdendo o chão? Literalmente.
| A Promessa do Hub | A Realidade no Solo |
|---|---|
| Geração de milhares de empregos técnicos. | Empregos temporários na construção; operação automatizada requer pouca mão de obra local. |
| Uso de terras "improdutivas". | Cercamento de terras de uso comum de comunidades tradicionais, quilombolas e pescadores. |
| Energia limpa para o Brasil. | Foco primário na exportação (amônia verde) para o mercado europeu. |
As comunidades de pescadores artesanais e povos originários nas regiões costeiras e na Caatinga já sentem a pressão. A corrida para instalar parques eólicos e solares — necessários para alimentar a produção do H2V — está criando "cercas de vento". Onde antes se transitava livremente para pescar ou plantar, agora há seguranças privados e torres gigantescas zumbindo dia e noite.
É curioso (para não dizer trágico) que a transição energética, vendida como a salvação do planeta, esteja replicando a lógica das antigas plantations. Troca-se a cana-de-açúcar pelas pás eólicas, mas a dinâmica de poder permanece: o lucro é privatizado e enviado para fora, enquanto o impacto social e a alteração da paisagem ficam para quem mora ali.
O Ceará corre o risco de se tornar uma bateria gigante para o mundo rico. E sabemos o que acontece com baterias quando elas não servem mais: são descartadas. Se não houver uma contrapartida social real, blindada por legislação e não apenas por promessas de campanha, a "nova economia" será apenas a velha exploração com um logotipo novo.


