Daiane Alves: O 'Breu' do Subsolo e o Silêncio que Ensurdece Caldas Novas
Ela desceu para religar a luz e foi tragada pelo concreto. Nos bastidores da investigação, o caso da corretora revela que nossos 'bunkers' urbanos são mais frágeis do que imaginamos.

Enquanto a mídia tradicional repete a cronologia oficial — 17 de dezembro, um disjuntor que cai, uma descida fatal ao subsolo —, quem circula pelos corredores da segurança pública em Goiás sabe que o buraco é, literalmente, mais embaixo. O desaparecimento de Daiane Alves Souza não é apenas um mistério policial; é uma ruptura na narrativa de segurança que vendemos (e compramos) a preço de ouro nos grandes centros urbanos.
Eu vi esse filme antes. O roteiro é sempre o mesmo: a vítima está em seu habitat natural. Daiane, 43 anos, corretora experiente, conhecia aquele prédio em Caldas Novas como a palma da mão. Ela administrava unidades ali. Era o território dela. E é justamente aí que mora o perigo que ninguém gosta de admitir.
"A sensação de segurança dentro de um condomínio fechado é o maior alucinógeno da classe média brasileira. Daiane não estava na rua escura; estava em casa."
O que circula em off entre investigadores e vizinhos receosos é a existência de um "ponto cego" — não apenas nas câmeras de segurança, mas na convivência social. Relatos de desavenças anteriores e boletins de ocorrência por ameaça desenham um cenário de tensão que foi ignorado até ser tarde demais. O subsolo, sem sinal de celular e sem testemunhas, tornou-se a tempestade perfeita.
👀 O que as câmeras (não) mostraram?
O aspecto mais perturbador deste caso é o paradoxo da vigilância:
- 18h57: Daiane entra no elevador. Fala com um vizinho.
- Subsolo: Ela desce para religar a energia. Grava um vídeo (que nunca foi enviado).
- O Vácuo: O prédio tem câmeras nas saídas. Nenhuma registrou a saída dela. Se ela não saiu, e não voltou para o apartamento, onde ela está? O edifício de 165 unidades transformou-se em um labirinto hermético.
A vulnerabilidade aqui é técnica e humana. Para uma corretora de imóveis, entrar em espaços vazios, garagens e apartamentos desocupados faz parte da rotina (arriscada). Mas Daiane desceu de chinelos, com a porta de casa destrancada. Ela não estava trabalhando; estava vivendo. E, num estalar de dedos, a profissional autônoma, aquela que conecta pessoas a lares, tornou-se invisível.
O caso Daiane Alves é um espelho brutal porque nos força a encarar a fragilidade da nossa autonomia. Você paga o condomínio, você confia nas câmeras, você acredita que o porteiro está vendo. Mas quando a luz acaba e o elevador desce para o nível -1, as regras da civilidade parecem ficar no térreo. Quem protege quem transita nas entranhas de concreto das nossas cidades?
Não esperem respostas fáceis nos próximos dias. O silêncio em Caldas Novas é denso. Mas uma coisa é certa: cada vez que um de nós desce sozinho para verificar um disjuntor daqui para frente, levará consigo o fantasma dessa dúvida.
Le pouls de la rue, les tendances de demain. Je raconte la société telle qu'elle est, pas telle qu'on voudrait qu'elle soit. Enquête sur le réel.


