Société

Daiane Alves: O 'Breu' do Subsolo e o Silêncio que Ensurdece Caldas Novas

Ela desceu para religar a luz e foi tragada pelo concreto. Nos bastidores da investigação, o caso da corretora revela que nossos 'bunkers' urbanos são mais frágeis do que imaginamos.

MC
Myriam CohenJournaliste
16 janvier 2026 à 15:013 min de lecture
Daiane Alves: O 'Breu' do Subsolo e o Silêncio que Ensurdece Caldas Novas

Enquanto a mídia tradicional repete a cronologia oficial — 17 de dezembro, um disjuntor que cai, uma descida fatal ao subsolo —, quem circula pelos corredores da segurança pública em Goiás sabe que o buraco é, literalmente, mais embaixo. O desaparecimento de Daiane Alves Souza não é apenas um mistério policial; é uma ruptura na narrativa de segurança que vendemos (e compramos) a preço de ouro nos grandes centros urbanos.

Eu vi esse filme antes. O roteiro é sempre o mesmo: a vítima está em seu habitat natural. Daiane, 43 anos, corretora experiente, conhecia aquele prédio em Caldas Novas como a palma da mão. Ela administrava unidades ali. Era o território dela. E é justamente aí que mora o perigo que ninguém gosta de admitir.

"A sensação de segurança dentro de um condomínio fechado é o maior alucinógeno da classe média brasileira. Daiane não estava na rua escura; estava em casa."

O que circula em off entre investigadores e vizinhos receosos é a existência de um "ponto cego" — não apenas nas câmeras de segurança, mas na convivência social. Relatos de desavenças anteriores e boletins de ocorrência por ameaça desenham um cenário de tensão que foi ignorado até ser tarde demais. O subsolo, sem sinal de celular e sem testemunhas, tornou-se a tempestade perfeita.

👀 O que as câmeras (não) mostraram?

O aspecto mais perturbador deste caso é o paradoxo da vigilância:

  • 18h57: Daiane entra no elevador. Fala com um vizinho.
  • Subsolo: Ela desce para religar a energia. Grava um vídeo (que nunca foi enviado).
  • O Vácuo: O prédio tem câmeras nas saídas. Nenhuma registrou a saída dela. Se ela não saiu, e não voltou para o apartamento, onde ela está? O edifício de 165 unidades transformou-se em um labirinto hermético.

A vulnerabilidade aqui é técnica e humana. Para uma corretora de imóveis, entrar em espaços vazios, garagens e apartamentos desocupados faz parte da rotina (arriscada). Mas Daiane desceu de chinelos, com a porta de casa destrancada. Ela não estava trabalhando; estava vivendo. E, num estalar de dedos, a profissional autônoma, aquela que conecta pessoas a lares, tornou-se invisível.

O caso Daiane Alves é um espelho brutal porque nos força a encarar a fragilidade da nossa autonomia. Você paga o condomínio, você confia nas câmeras, você acredita que o porteiro está vendo. Mas quando a luz acaba e o elevador desce para o nível -1, as regras da civilidade parecem ficar no térreo. Quem protege quem transita nas entranhas de concreto das nossas cidades?

Não esperem respostas fáceis nos próximos dias. O silêncio em Caldas Novas é denso. Mas uma coisa é certa: cada vez que um de nós desce sozinho para verificar um disjuntor daqui para frente, levará consigo o fantasma dessa dúvida.

MC
Myriam CohenJournaliste

Le pouls de la rue, les tendances de demain. Je raconte la société telle qu'elle est, pas telle qu'on voudrait qu'elle soit. Enquête sur le réel.