Économie

FIES: A bomba-relógio de R$ 100 bilhões que ninguém sabe como desarmar

Esqueça a narrativa romântica do diploma na parede. O que resta do FIES é um cemitério de nomes sujos, mensalidades inflacionadas e um lucro obsceno para grandes conglomerados. Quem paga a conta?

SG
Stéphane GuérinJournaliste
19 février 2026 à 05:033 min de lecture
FIES: A bomba-relógio de R$ 100 bilhões que ninguém sabe como desarmar

Vamos parar de fingir que está tudo bem com o modelo de financiamento estudantil brasileiro? A narrativa oficial é linda: o filho do pedreiro virou doutor. A realidade contábil, no entanto, é fria e impiedosa: o filho do pedreiro virou um endividado crônico, e o dono da faculdade comprou mais um jatinho. O FIES, vendido como a redenção da classe C, tornou-se o exemplo perfeito de como uma boa intenção pode pavimentar o inferno fiscal.

Não se trata de negar o acesso à educação. Pelo contrário. Trata-se de questionar a matemática. Durante os anos de ouro do crédito fácil, o governo abriu as torneiras. O que as universidades privadas fizeram? Agradeceram a generosidade estatal aumentando as mensalidades muito acima da inflação. Era dinheiro garantido. (E quem recusaria um cheque em branco assinado pelo Tesouro?). Criou-se uma bolha.

"O FIES funcionou como um anabolizante para o mercado de ensino superior: inflou os preços, enriqueceu acionistas e deixou a ressaca para o estudante desempregado."

Os números de inadimplência não são apenas estatísticas; são o sintoma de um sistema quebrado. Quando mais da metade dos contratos entra em fase de atraso, o problema não é o aluno "caloteiro". O problema é o produto vendido. Prometeu-se que o diploma garantiria a renda para pagar o empréstimo. Mentiram. O mercado de trabalho estagnou, os salários de entrada despencaram, mas a parcela do banco continua chegando todo dia 10.

Quem ganhou e quem perdeu nessa roleta russa?

A Narrativa OficialA Realidade Crua
Ascensão SocialEngenheiros dirigindo Uber para pagar dívidas de R$ 50 mil.
Investimento PúblicoTransferência direta de renda estatal para conglomerados educacionais (Kroton, Estácio, etc).
Educação de QualidadeMassificação do ensino EAD de baixo custo com mensalidades de curso presencial.

As renegociações recentes, os "Desenrolas" da vida, são apenas curativos em uma fratura exposta. O governo perdoa juros, estende prazos, absorve o prejuízo. Ou seja, você, contribuinte que talvez nem tenha curso superior, está pagando a conta dessa festa. O rombo bilionário do Fundo Garantidor não vai desaparecer com retórica política.

O que nos leva à pergunta que poucos ousam fazer: Vale a pena subsidiar diplomas em massa sem um plano de desenvolvimento econômico que absorva essa mão de obra? Ou estamos apenas criando a geração mais educada — e mais frustrada — da história do Brasil? Enquanto o MEC celebra números de matrículas, o mercado financeiro celebra os lucros das educacionais na Bolsa. O aluno? Ah, esse continua esperando o tal futuro prometido chegar pelo correio. Provavelmente virá em forma de boleto.

SG
Stéphane GuérinJournaliste

L'argent ne dort jamais, et moi non plus. Je dissèque les marchés financiers au scalpel. Rentabilité garantie de l'info. L'inflation n'a aucun secret pour moi.