FIES: A bomba-relógio de R$ 100 bilhões que ninguém sabe como desarmar
Esqueça a narrativa romântica do diploma na parede. O que resta do FIES é um cemitério de nomes sujos, mensalidades inflacionadas e um lucro obsceno para grandes conglomerados. Quem paga a conta?

Vamos parar de fingir que está tudo bem com o modelo de financiamento estudantil brasileiro? A narrativa oficial é linda: o filho do pedreiro virou doutor. A realidade contábil, no entanto, é fria e impiedosa: o filho do pedreiro virou um endividado crônico, e o dono da faculdade comprou mais um jatinho. O FIES, vendido como a redenção da classe C, tornou-se o exemplo perfeito de como uma boa intenção pode pavimentar o inferno fiscal.
Não se trata de negar o acesso à educação. Pelo contrário. Trata-se de questionar a matemática. Durante os anos de ouro do crédito fácil, o governo abriu as torneiras. O que as universidades privadas fizeram? Agradeceram a generosidade estatal aumentando as mensalidades muito acima da inflação. Era dinheiro garantido. (E quem recusaria um cheque em branco assinado pelo Tesouro?). Criou-se uma bolha.
"O FIES funcionou como um anabolizante para o mercado de ensino superior: inflou os preços, enriqueceu acionistas e deixou a ressaca para o estudante desempregado."
Os números de inadimplência não são apenas estatísticas; são o sintoma de um sistema quebrado. Quando mais da metade dos contratos entra em fase de atraso, o problema não é o aluno "caloteiro". O problema é o produto vendido. Prometeu-se que o diploma garantiria a renda para pagar o empréstimo. Mentiram. O mercado de trabalho estagnou, os salários de entrada despencaram, mas a parcela do banco continua chegando todo dia 10.
Quem ganhou e quem perdeu nessa roleta russa?
| A Narrativa Oficial | A Realidade Crua |
|---|---|
| Ascensão Social | Engenheiros dirigindo Uber para pagar dívidas de R$ 50 mil. |
| Investimento Público | Transferência direta de renda estatal para conglomerados educacionais (Kroton, Estácio, etc). |
| Educação de Qualidade | Massificação do ensino EAD de baixo custo com mensalidades de curso presencial. |
As renegociações recentes, os "Desenrolas" da vida, são apenas curativos em uma fratura exposta. O governo perdoa juros, estende prazos, absorve o prejuízo. Ou seja, você, contribuinte que talvez nem tenha curso superior, está pagando a conta dessa festa. O rombo bilionário do Fundo Garantidor não vai desaparecer com retórica política.
O que nos leva à pergunta que poucos ousam fazer: Vale a pena subsidiar diplomas em massa sem um plano de desenvolvimento econômico que absorva essa mão de obra? Ou estamos apenas criando a geração mais educada — e mais frustrada — da história do Brasil? Enquanto o MEC celebra números de matrículas, o mercado financeiro celebra os lucros das educacionais na Bolsa. O aluno? Ah, esse continua esperando o tal futuro prometido chegar pelo correio. Provavelmente virá em forma de boleto.


