Fies: A promessa do diploma que virou algema financeira
Venderam a ideia de que a assinatura em um contrato era o passaporte para a classe média. Anos depois, o diploma está na parede, mas o oficial de justiça está na porta.

Tudo começou com uma caneta azul e um sorriso esperançoso no guichê de uma faculdade privada. Vamos chamar nosso protagonista de Lucas. Em 2014, Lucas ouviu que o Brasil precisava de engenheiros. Seus pais, que nunca pisaram em uma universidade, viram no Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) a materialização de um milagre: o governo paga agora, você paga depois, quando for doutor.
Corta para 2024. Lucas não constrói pontes. Ele dirige um carro alugado por aplicativo 12 horas por dia. O diploma de Engenharia Civil acumula poeira, enquanto a dívida no banco acumula juros compostos que desafiam a lógica matemática que ele aprendeu em Cálculo I. A história de Lucas não é um acidente de percurso; é o retrato falado de uma política pública que democratizou o acesso, mas esqueceu de combinar com o mercado de trabalho.
O Grande Ilusionismo
Durante a década de ouro do crédito fácil, o Fies funcionou como um anabolizante para o ensino superior privado. Grandes grupos educacionais abriram unidades em cada esquina (literalmente, às vezes em cima de padarias), garantidos pelo dinheiro público.
O aluno? Era apenas o intermediário necessário para transferir verba do Tesouro para os balanços das gigantes da educação. Ninguém explicou para essa garotada de 18 anos o que significa amortização, juros ou o risco de saturação do mercado.
"O Fies não financiou apenas sonhos; ele financiou a maior transferência de renda para conglomerados educacionais da história do país, deixando o passivo no colo de quem tem menos: o estudante."
A inadimplência explodiu. Não porque os jovens são caloteiros, mas porque a promessa de "emprego garantido" era, no mínimo, otimista demais. O mercado não absorveu essa mão de obra qualificada (ou, em muitos casos, mal qualificada por instituições de esquina).
Expectativa x Realidade Brutal
Para entender o tamanho do abismo, basta olhar para o que foi vendido versus o que foi entregue:
| A Promessa do Contrato | A Realidade do Ex-Aluno |
|---|---|
| Pagamento após conseguir emprego na área. | Cobrança chega mesmo com desemprego ou subemprego. |
| Ascensão social imediata via diploma. | Salários estagnados e concorrência feroz. |
| Juros baixos e subsidiados. | Montante final impagável pela correção monetária acumulada. |
O "Desenrola" é a cura?
Recentemente, o governo lançou programas de renegociação com descontos de até 99%. Parece generoso, certo? (E é, para quem estava com a corda no pescoço). Mas, numa análise fria, esse perdão massivo é a admissão oficial do fracasso do modelo.
Quando você precisa perdoar quase a totalidade da dívida de milhões de pessoas, você está gritando para o mundo: "Nós vendemos um produto que não valia o preço". O Estado assume o prejuízo, as faculdades mantêm os lucros obtidos lá atrás, e o ex-aluno fica com o "nome limpo", mas com a sensação amarga de ter perdido anos perseguindo um vento que não soprou.
O que resta? Uma geração cética. Jovens que olham para o ensino superior não mais como um elevador social, mas como uma aposta de alto risco num cassino onde a banca (quase) sempre vence.
Le pouls de la rue, les tendances de demain. Je raconte la société telle qu'elle est, pas telle qu'on voudrait qu'elle soit. Enquête sur le réel.


