Société

Fies: A promessa do diploma que virou algema financeira

Venderam a ideia de que a assinatura em um contrato era o passaporte para a classe média. Anos depois, o diploma está na parede, mas o oficial de justiça está na porta.

MC
Myriam CohenJournaliste
16 janvier 2026 à 04:313 min de lecture
Fies: A promessa do diploma que virou algema financeira

Tudo começou com uma caneta azul e um sorriso esperançoso no guichê de uma faculdade privada. Vamos chamar nosso protagonista de Lucas. Em 2014, Lucas ouviu que o Brasil precisava de engenheiros. Seus pais, que nunca pisaram em uma universidade, viram no Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) a materialização de um milagre: o governo paga agora, você paga depois, quando for doutor.

Corta para 2024. Lucas não constrói pontes. Ele dirige um carro alugado por aplicativo 12 horas por dia. O diploma de Engenharia Civil acumula poeira, enquanto a dívida no banco acumula juros compostos que desafiam a lógica matemática que ele aprendeu em Cálculo I. A história de Lucas não é um acidente de percurso; é o retrato falado de uma política pública que democratizou o acesso, mas esqueceu de combinar com o mercado de trabalho.

O Grande Ilusionismo

Durante a década de ouro do crédito fácil, o Fies funcionou como um anabolizante para o ensino superior privado. Grandes grupos educacionais abriram unidades em cada esquina (literalmente, às vezes em cima de padarias), garantidos pelo dinheiro público.

O aluno? Era apenas o intermediário necessário para transferir verba do Tesouro para os balanços das gigantes da educação. Ninguém explicou para essa garotada de 18 anos o que significa amortização, juros ou o risco de saturação do mercado.

"O Fies não financiou apenas sonhos; ele financiou a maior transferência de renda para conglomerados educacionais da história do país, deixando o passivo no colo de quem tem menos: o estudante."

A inadimplência explodiu. Não porque os jovens são caloteiros, mas porque a promessa de "emprego garantido" era, no mínimo, otimista demais. O mercado não absorveu essa mão de obra qualificada (ou, em muitos casos, mal qualificada por instituições de esquina).

Expectativa x Realidade Brutal

Para entender o tamanho do abismo, basta olhar para o que foi vendido versus o que foi entregue:

A Promessa do ContratoA Realidade do Ex-Aluno
Pagamento após conseguir emprego na área.Cobrança chega mesmo com desemprego ou subemprego.
Ascensão social imediata via diploma.Salários estagnados e concorrência feroz.
Juros baixos e subsidiados.Montante final impagável pela correção monetária acumulada.

O "Desenrola" é a cura?

Recentemente, o governo lançou programas de renegociação com descontos de até 99%. Parece generoso, certo? (E é, para quem estava com a corda no pescoço). Mas, numa análise fria, esse perdão massivo é a admissão oficial do fracasso do modelo.

Quando você precisa perdoar quase a totalidade da dívida de milhões de pessoas, você está gritando para o mundo: "Nós vendemos um produto que não valia o preço". O Estado assume o prejuízo, as faculdades mantêm os lucros obtidos lá atrás, e o ex-aluno fica com o "nome limpo", mas com a sensação amarga de ter perdido anos perseguindo um vento que não soprou.

O que resta? Uma geração cética. Jovens que olham para o ensino superior não mais como um elevador social, mas como uma aposta de alto risco num cassino onde a banca (quase) sempre vence.

MC
Myriam CohenJournaliste

Le pouls de la rue, les tendances de demain. Je raconte la société telle qu'elle est, pas telle qu'on voudrait qu'elle soit. Enquête sur le réel.