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Fumaça no Betânia: quando o Anel Rodoviário vira trincheira de quem não tem CEP

Enquanto pneus queimam e o trânsito para, a Vila Maria expõe a ferida aberta de Belo Horizonte: uma rodovia que deveria conectar, mas que serve de muro entre a cidade formal e os invisíveis.

MC
Myriam CohenJournaliste
10 février 2026 à 17:013 min de lecture
Fumaça no Betânia: quando o Anel Rodoviário vira trincheira de quem não tem CEP

O cheiro de borracha queimada não engana ninguém que vive em Belo Horizonte. Ele sobe denso, preto, cortando o horizonte cinza da capital mineira e sinalizando, muito antes dos alertas de GPS, que o Anel Rodoviário parou. De novo. Mas, desta vez (como em tantas outras), não foi um caminhão sem freio descendo o Betânia. Foi o grito.

Quem olhava das janelas dos carros parados na manhã desta terça-feira, 10 de fevereiro, via apenas o inconveniente: o atraso para o trabalho, o calor, a impaciência. Mas quem estava no asfalto, segurando faixas improvisadas diante da Vila Maria, via a única moeda de troca que lhes resta: o caos.

"Eles acham que a gente queima pneu porque gosta de bagunça. A gente queima pneu porque, se não fizer fumaça, a prefeitura nem lembra que a gente existe. O asfalto passa aqui na porta, mas a dignidade passa longe."
— Relato de uma moradora da ocupação, ouvida em meio ao bloqueio.

A história se repete como um refrão desafinado. O Anel, essa cicatriz de 27 quilômetros que circunda a cidade, deixou de ser apenas uma via de trânsito rápido (se é que algum dia foi) para se tornar uma fronteira. De um lado, a cidade que se move; do outro, a cidade que se amontoa.

A promessa versus o concreto

Há menos de um ano, a municipalização da rodovia foi vendida como a panaceia. A Prefeitura de Belo Horizonte assumiu a gestão prometendo um "Novo Anel". Radares foram instalados, discursos foram feitos. Mas para as famílias da Vila Maria — e de tantas outras vilas espremidas entre o barranco e a carreta —, a caneta do burocrata não mudou a realidade do despejo iminente.

A manifestação de hoje no trecho do bairro Betânia não é um evento isolado; é um sintoma crônico. É o choque entre a lógica do "fluxo" (os carros precisam passar) e a lógica da "vida" (as pessoas precisam morar).

O Discurso Oficial (Novo Anel)A Realidade na Pista (Vila Maria)
Instalação de 40 novos radares para segurança.Moradores pedem passarelas e sinalização básica há anos.
Transformação em "Avenida Urbana".Funciona como barreira física que isola comunidades.
Projetos de revitalização viária.Ameaças constantes de reintegração de posse sem alternativa habitacional clara.

Você percebe a ironia? Investe-se em tecnologia para multar quem corre demais, mas falta o básico para quem não tem para onde correr. A reivindicação para transformar a ocupação em Área de Interesse Social esbarra em tecnicalidades, enquanto o trator da reintegração de posse parece estar sempre com o motor ligado.

Quem paga a conta do atraso?

É fácil culpar o manifestante que fecha a via. (Sério, ninguém gosta de ficar preso no trânsito). Mas o congestionamento real não é o de carros; é o de soluções. A Vila Maria está ali, visível para quem quiser ver, há anos. O clamor por infraestrutura e reconhecimento não nasceu ontem.

O que acontece no Anel Rodoviário é um microcosmo do Brasil urbano. A rodovia, projetada para o transporte de cargas, virou o quintal de milhares de famílias. E quando o quintal pega fogo, a fumaça entra na sala de estar de todo mundo.

Resta saber se, quando a fumaça baixar e os Bombeiros limparem a pista, o diálogo vai continuar. Ou se teremos que esperar a próxima fogueira para lembrar que, à margem do asfalto, existe gente.

MC
Myriam CohenJournaliste

Le pouls de la rue, les tendances de demain. Je raconte la société telle qu'elle est, pas telle qu'on voudrait qu'elle soit. Enquête sur le réel.