Politique

Geraldo Neto e a face oculta do novo militarismo

A prisão de um alto oficial da PM paulista por feminicídio não é um raio em céu azul. Ela expõe as vísceras de uma estrutura que confunde farda com impunidade e comando com posse.

AM
Anne-Laure MercierJournaliste
19 mars 2026 à 11:063 min de lecture
Geraldo Neto e a face oculta do novo militarismo

A narrativa oficial tentou vender a ideia de uma tragédia isolada. Um suicídio no Brás, diziam os primeiros relatórios de fevereiro de 2026. (Afinal, questionar a palavra de um tenente-coronel não é o esporte favorito das corregedorias). Mas a farsa durou pouco. A prisão preventiva de Geraldo Leite Rosa Neto, efetuada em março, implodiu a tese inicial.

⚡ O essencial

  • A farsa: O tenente-coronel PM Geraldo Leite Rosa Neto foi preso em março de 2026 após a "morte suspeita" de sua esposa, a soldado Gisele Santana, revelar ser um feminicídio.
  • O histórico: Promovido em 2025, o oficial já acumulava denúncias de assédio moral e comportamento abusivo.
  • A raiz estrutural: O caso transcende a crônica policial, revelando uma face obscura do militarismo institucional brasileiro, pautado pelo controle e pela misoginia.

Laudos apontaram agressões e lavagem de cena do crime, além de uma arma colocada na mão da vítima para forjar evidências. O que esse protagonismo mórbido nos diz sobre a atual fase do militarismo no Brasil?

A resposta exige ir além da superfície. Não estamos falando apenas de segurança pública. Estamos lidando com a militarização da vida privada. A corporação militar, muitas vezes blindada contra auditorias civis rigorosas, cultiva um ethos que premia a agressividade sob o disfarce da ordem. Como um oficial com condenação anterior por perseguição e danos morais contra outra policial continua ascendendo por "antiguidade" ao topo da PM paulista? A quem interessa manter essa engrenagem de proteção mútua intacta?

"Macho alfa provedor e fêmea submissa."

Essas foram as palavras enviadas pelo tenente-coronel à sua esposa dois dias antes da morte. A frase é um sintoma brutal. O "novo militarismo" não precisa de intervenções fardadas na política para operar; ele se manifesta na microfísica do poder. Ele exige obediência cega. Submissão. (E quando essa submissão é negada dentro de casa, a violência institucional se transmuta em violência doméstica mortal).

O que poucos têm coragem de dizer é que as mulheres nas forças de segurança enfrentam uma dupla hierarquia repressiva: a patente e o gênero. O corporativismo fardado atua, via de regra, como um escudo para homens que não sabem separar o quartel da sala de estar. Quem é impactado por essa cultura? Cada soldada, cabo ou sargenta que precisa bater continência para quem, nos bastidores, reproduz as lógicas de controle mais primitivas que existem.

Se o Estado permite que a masculinidade tóxica seja condecorada com estrelas nos ombros, não podemos fingir surpresa quando a bala perdida tem destino certo. O silêncio institucional não é omissão. Ele é projeto.

AM
Anne-Laure MercierJournaliste

Je hante les couloirs du pouvoir. Je traduis le "politiquement correct" en français courant. Ça pique, mais c'est vrai. Les lois, je les lis avant le vote.