Meu INSS: A fila não acabou, ela só ficou invisível
Venderam-nos a digitalização da Previdência como a panaceia contra a burocracia. Na prática? O caos saiu das calçadas e foi para o servidor, criando uma barreira silenciosa de indeferimentos automáticos.

Lembra das filas que dobravam quarteirões? Aquelas madrugadas frias esperando uma senha de papel? A promessa do Meu INSS era simples e sedutora: transformar esse purgatório analógico em um paraíso de cliques. Mas, olhando para os números reais (e não para os slides de PowerPoint do governo), o que vemos é uma transformação perversa. A fila não desapareceu; ela se tornou etérea, escondida atrás de logins do Gov.br e interfaces que confundem até nativos digitais.
A narrativa oficial celebra a redução do fluxo nas agências físicas. O que não dizem é que, ao fechar a porta física, trancaram do lado de fora milhões de brasileiros que não possuem letramento digital. (E não estamos falando apenas de idosos rurais, mas de uma vasta camada da população que acessa a internet apenas via WhatsApp ilimitado).
A digitalização sem humanização não é modernidade, é exclusão programada. O sistema foi desenhado para quem tem banda larga, não para quem tem fome.
O Robô que diz 'Não'
Aqui entra o ponto que poucos discutem abertamente: a automação do indeferimento. Para zerar a tal "fila", o INSS apostou alto na inteligência artificial. O resultado? Uma máquina de negar direitos em tempo recorde. Se um dígito do CNIS não bater com a carteira de trabalho, o algoritmo não pondera, não analisa contexto, não chama para esclarecimento. Ele nega.
Isso gera um efeito estatístico curioso: a fila de espera inicial diminui, mas a fila de recursos — o chamado "recurso administrativo" — explode. Estamos trocando uma espera passiva por uma batalha judicial ativa.
Promessa vs. Realidade
Vamos dissecar a diferença entre o marketing institucional e o chão de fábrica da previdência:
| A Narrativa Oficial | A Realidade do Segurado |
|---|---|
| "Concessão em minutos via Robô" | Indeferimento automático por erros de digitação do sistema. |
| "Tudo na palma da mão" | Site instável (Erro 502) e exigência de 'Nível Prata/Ouro' impossível para muitos. |
| "Fim das filas nas agências" | Meses (ou anos) aguardando a perícia médica presencial, que o app não resolve. |
O gargalo da Perícia Médica
Onde o digital encontra seu limite absoluto é na carne. O aplicativo pode processar documentos, mas não pode examinar uma coluna travada ou uma depressão incapacitante. O Meu INSS agiliza o requerimento administrativo, sim, mas serve como um funil para um sistema de perícias médicas que opera com defasagem crítica de pessoal.
Você agenda pelo app para daqui a seis meses. Se o benefício for negado (lembra do robô?), você volta para o final da fila. É um ciclo de looping burocrático onde a tecnologia serve mais para distanciar o cidadão do Estado do que para aproximá-lo. O botão "solicitar" é fácil de achar; o botão "ser atendido por um humano que entenda meu caso" parece ter sido esquecido no código-fonte.
Le pouls de la rue, les tendances de demain. Je raconte la société telle qu'elle est, pas telle qu'on voudrait qu'elle soit. Enquête sur le réel.


