O abismo silencioso: As fissuras na gestão Lula que o barulho ideológico esconde
Enquanto as redes sociais fervem com guerras culturais, a máquina pública engasga. Esqueça a polarização: o verdadeiro inimigo do governo está nas planilhas de execução que não andam e no custo político inflacionado.

Se você fechar os olhos e apenas ouvir o noticiário de Brasília, terá a impressão de que o Brasil vive um eterno 2018. Gritos, acusações de golpismo, batalhas no STF e uma polarização que alimenta algoritmos. Mas, se você baixar o volume e olhar para o chassi da máquina pública, verá algo muito mais preocupante do que a gritaria ideológica: a imobilidade.
Não estamos falando de ideologia aqui (isso deixamos para o Twitter). Estamos falando de mecânica de poder. E o motor do Lula III está batendo pino.
A Governabilidade de Aluguel (Inflacionado)
Há um mito de que a "habilidade política" de Lula resolveria o impasse com o Congresso. A realidade? O custo da governabilidade disparou, e a lealdade despencou. O Planalto hoje paga o preço de uma cobertura de luxo para morar numa kitnet alugada. Arthur Lira e o Centrão não são aliados; são sócios majoritários que cobram dividendos semanais.
Observe a discrepância entre o esforço político e o resultado prático:
| Indicador | Lula I (2003) | Lula III (Atual) |
|---|---|---|
| Ministérios | 34 (Fidelidade alta) | 38 (Fidelidade volátil) |
| Controle do Orçamento | Executivo decidia | Legislativo sequestra |
| Base Parlamentar | Ideológica + Pragmática | Mercenária |
O governo cede anéis, dedos e braços, mas as pautas estruturantes — aquelas que não são meramente arrecadatórias — rastejam. A reforma tributária passou? Passou. Mas a que custo de emendas? E o arcabouço fiscal já nasce pedindo socorro, com uma meta de déficit zero que nem a equipe econômica parece acreditar piamente (embora jurem de pés juntos em público).
O PAC e a Miragem da Entrega
Onde estão os guindastes? O Novo PAC foi lançado com pompa, confete e PowerPoint. Meses depois, a execução orçamentária real — o dinheiro que sai da conta e vira tijolo — é anêmica. A burocracia estatal envelheceu. As licitações travam não por sabotagem externa, mas por incompetência interna e medo de órgãos de controle. O governo promete a picanha, mas entrega, com sorte, um vale-alimentação corroído pela inflação dos alimentos.
O Vazio Sucessório: Quem Herda o Trono?
Aqui reside a fissura mais profunda e invisível. O PT, em sua obsessão pelo culto à personalidade de Lula, esqueceu-se de cultivar um jardim de sucessores. Haddad tenta se equilibrar entre agradar o mercado (que o tolera) e o partido (que o desconfia). Mas ele tem o carisma necessário para uma disputa majoritária brutal sem Lula na cédula?
"O governo corre contra o tempo, não contra a oposição. O relógio biológico da liderança e o relógio fiscal da economia estão descompassados. E não há um 'Plano B' visível no horizonte."
Enquanto a militância digital briga por narrativas sobre quem tem razão na geopolítica internacional, a fissura interna se alarga. O governo Lula III corre o risco de ser um mandato de transição para algo que nem a esquerda nem a direita tradicional conseguem prever. A governabilidade está segura? Talvez. Mas a capacidade de transformar o país, essa sim, está por um fio.
Je hante les couloirs du pouvoir. Je traduis le "politiquement correct" en français courant. Ça pique, mais c'est vrai. Les lois, je les lis avant le vote.


