O Borussia Dortmund e a Arte de Quase Chegar Lá
Eles fabricam Bolas de Ouro e colecionam vice-campeonatos. Por que o modelo de negócios mais invejado da Europa se tornou a maior maldição da Muralha Amarela?

Imagine Hans. Hans tem 55 anos, uma barriga cultivada à base de bratwurst e cerveja Brinkhoff's, e ocupa o mesmo metro quadrado na Südtribüne — a lendária Muralha Amarela — desde que o Muro de Berlim ainda estava de pé. Hans já viu de tudo. Mas nos últimos dez anos, a rotina de Hans tem um sabor agridoce, quase masoquista. Ele se apaixona perdidamente por um garoto prodígio em agosto, grita o nome dele até perder a voz em maio, e chora sua venda para Madrid ou Manchester em julho. (Um ciclo vicioso que faria Sísifo largar a pedra e pedir uma cerveja).
Bem-vindo ao paradoxo do Borussia Dortmund. O clube mais apaixonante e, simultaneamente, o mais frustrante do futebol europeu.
A Fábrica de Diamantes (que nunca ficam no cofre)
Não nos enganemos: o BVB opera um milagre econômico. Enquanto o Barcelona hipoteca o futuro e o Chelsea queima dinheiro como se não houvesse amanhã, o Dortmund transformou o scouting em uma forma de arte. Eles não compram estrelas; eles as forjam. Mas qual é o custo esportivo dessa alquimia financeira?
Para entender a dimensão da coisa, olhemos para os números recentes. Não são apenas transferências; é uma exportação de talento bruto que alimenta a elite predatória da Europa.
Impressionante, não? O CFO do clube certamente dorme tranquilo. Mas e o Hans? O Hans dorme sonhando com a Meisterschale (a salva de prata da Bundesliga) que escapou tragicamente na última rodada de 2023. Aquele empate contra o Mainz não foi apenas um tropeço; foi a confirmação cruel de que o clube sofre de uma vertigem crônica. Quando o topo da montanha está à vista, as pernas tremem.
A Síndrome do Eterno "Vice"
O problema não é perder para o Bayern de Munique. O Bayern é uma máquina corporativa desenhada para triturar esperanças alemãs. O problema é a maneira como o Dortmund perde para si mesmo. A reconstrução é perpétua. Sai Klopp, entra Tuchel, entra Favre, entra Terzic, entra Sahin. A filosofia muda, mas a fragilidade mental em momentos decisivos parece impregnada nas paredes do Signal Iduna Park.
"O Borussia Dortmund tornou-se o clube mais romântico do mundo para os neutros, e o mais doloroso para os seus fiéis. É o eterno 'quase' vestido de amarelo e preto."
Há uma beleza trágica nisso. O Dortmund recusa-se a ser um clube de plástico, mantendo a regra do 50+1 (que garante o controle dos sócios) sagrada, enquanto compete contra conglomerados estatais e oligarcas. Eles são os últimos guardiões de um futebol "puro" em alto nível? Talvez.
O Que Ninguém Diz: O Conforto do Segundo Lugar
Aqui entra a parte incômoda, aquela que você não lê nos comunicados de imprensa. Será que o modelo de negócios do Dortmund precisa de títulos? Financeiramente, a classificação para a Champions League e a venda de um craque por ano mantêm a máquina perfeitamente lubrificada. O título é um bônus, não uma exigência existencial como é na Baviera.
Essa zona de conforto é perigosa. Ela cria uma cultura onde o bom é suficiente e o excelente é vendido na próxima janela de transferências. Para Hans e os outros 25.000 fanáticos na Südtribüne, a lealdade é inegociável. Mas até quando a paixão resiste à sensação de ser apenas um trampolim de luxo para a Premier League?
O Borussia Dortmund vive hoje numa encruzilhada de ouro: rico demais para falir, talentoso demais para ser ignorado, mas, aparentemente, assustado demais para vencer.
Tactique, stats et mauvaise foi. Le sport se joue sur le terrain, mais se gagne dans les commentaires. Analyse du jeu, du vestiaire et des tribunes.

