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O Borussia Dortmund e a Arte de Quase Chegar Lá

Eles fabricam Bolas de Ouro e colecionam vice-campeonatos. Por que o modelo de negócios mais invejado da Europa se tornou a maior maldição da Muralha Amarela?

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Rafael TorresPeriodista
1 de febrero de 2026, 17:013 min de lectura
O Borussia Dortmund e a Arte de Quase Chegar Lá

Imagine Hans. Hans tem 55 anos, uma barriga cultivada à base de bratwurst e cerveja Brinkhoff's, e ocupa o mesmo metro quadrado na Südtribüne — a lendária Muralha Amarela — desde que o Muro de Berlim ainda estava de pé. Hans já viu de tudo. Mas nos últimos dez anos, a rotina de Hans tem um sabor agridoce, quase masoquista. Ele se apaixona perdidamente por um garoto prodígio em agosto, grita o nome dele até perder a voz em maio, e chora sua venda para Madrid ou Manchester em julho. (Um ciclo vicioso que faria Sísifo largar a pedra e pedir uma cerveja).

Bem-vindo ao paradoxo do Borussia Dortmund. O clube mais apaixonante e, simultaneamente, o mais frustrante do futebol europeu.

A Fábrica de Diamantes (que nunca ficam no cofre)

Não nos enganemos: o BVB opera um milagre econômico. Enquanto o Barcelona hipoteca o futuro e o Chelsea queima dinheiro como se não houvesse amanhã, o Dortmund transformou o scouting em uma forma de arte. Eles não compram estrelas; eles as forjam. Mas qual é o custo esportivo dessa alquimia financeira?

Para entender a dimensão da coisa, olhemos para os números recentes. Não são apenas transferências; é uma exportação de talento bruto que alimenta a elite predatória da Europa.

TalentoComprado por (aprox.)Vendido por (aprox.)Destino
Jude Bellingham€ 30 mi€ 103 miReal Madrid
Erling Haaland€ 20 mi€ 60 miMan. City
Ousmane Dembélé€ 35 mi€ 135 miBarcelona
Jadon Sancho€ 20 mi€ 85 miMan. United

Impressionante, não? O CFO do clube certamente dorme tranquilo. Mas e o Hans? O Hans dorme sonhando com a Meisterschale (a salva de prata da Bundesliga) que escapou tragicamente na última rodada de 2023. Aquele empate contra o Mainz não foi apenas um tropeço; foi a confirmação cruel de que o clube sofre de uma vertigem crônica. Quando o topo da montanha está à vista, as pernas tremem.

A Síndrome do Eterno "Vice"

O problema não é perder para o Bayern de Munique. O Bayern é uma máquina corporativa desenhada para triturar esperanças alemãs. O problema é a maneira como o Dortmund perde para si mesmo. A reconstrução é perpétua. Sai Klopp, entra Tuchel, entra Favre, entra Terzic, entra Sahin. A filosofia muda, mas a fragilidade mental em momentos decisivos parece impregnada nas paredes do Signal Iduna Park.

"O Borussia Dortmund tornou-se o clube mais romântico do mundo para os neutros, e o mais doloroso para os seus fiéis. É o eterno 'quase' vestido de amarelo e preto."

Há uma beleza trágica nisso. O Dortmund recusa-se a ser um clube de plástico, mantendo a regra do 50+1 (que garante o controle dos sócios) sagrada, enquanto compete contra conglomerados estatais e oligarcas. Eles são os últimos guardiões de um futebol "puro" em alto nível? Talvez.

O Que Ninguém Diz: O Conforto do Segundo Lugar

Aqui entra a parte incômoda, aquela que você não lê nos comunicados de imprensa. Será que o modelo de negócios do Dortmund precisa de títulos? Financeiramente, a classificação para a Champions League e a venda de um craque por ano mantêm a máquina perfeitamente lubrificada. O título é um bônus, não uma exigência existencial como é na Baviera.

Essa zona de conforto é perigosa. Ela cria uma cultura onde o bom é suficiente e o excelente é vendido na próxima janela de transferências. Para Hans e os outros 25.000 fanáticos na Südtribüne, a lealdade é inegociável. Mas até quando a paixão resiste à sensação de ser apenas um trampolim de luxo para a Premier League?

O Borussia Dortmund vive hoje numa encruzilhada de ouro: rico demais para falir, talentoso demais para ser ignorado, mas, aparentemente, assustado demais para vencer.

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Rafael TorresPeriodista

Periodista especializado en Deporte. Apasionado por el análisis de las tendencias actuales.