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O Carvão, o Grito e o Milagre: Criciúma Explica o Brasil que Ninguém Vê

Longe dos holofotes do eixo Rio-SP, o Estádio Heriberto Hülse ferve com uma lição esquecida pelo futebol moderno: a alma do jogo não se compra, se forja.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste
19 janvier 2026 à 23:013 min de lecture
O Carvão, o Grito e o Milagre: Criciúma Explica o Brasil que Ninguém Vê

Há um som específico que só existe no sul de Santa Catarina. Não é o barulho do vento cortando a Serra do Rio do Rastro, nem o maquinário pesado das minas de carvão que desenharam a economia local. É o som de 19 mil gargantas comprimidas em um caldeirão de concreto chamado Heriberto Hülse. Se você fechar os olhos durante um jogo do Criciúma, não ouve apenas uma torcida; ouve uma cidade inteira reivindicando sua existência no mapa.

A ressurreição do Tigre — apelido carinhoso e feroz do Criciúma Esporte Clube — não é apenas uma história de "sobe e desce" entre divisões. (O futebol brasileiro está cheio dessas). É uma crônica sobre como a paixão do interior se recusa a morrer diante da gentrificação das Arenas multiuso.

⚡ O essencial

  • A Identidade: O Criciúma representa a força do "futebol raiz" com um estádio que funciona como panela de pressão (o Majestoso).
  • O Fator Humano: A gestão longeva de Cláudio Tencati provou que continuidade vence orçamentos inflados.
  • O Fenômeno Pop: A passagem de astros internacionais (como Bolasie) colocou o clube no radar global, misturando carisma e competência.

O Milagre da Continuidade

Imagine um cenário onde técnicos duram, em média, três meses. Agora olhe para Cláudio Tencati. O homem que virou sinônimo do banco de reservas carvoeiro desafiou a lógica imediatista do Brasileirão. Sua permanência não foi teimosia; foi método. Enquanto gigantes trocavam de comando ao primeiro tropeço, o Criciúma apostava na repetição, no entrosamento e no suor.

Essa estabilidade permitiu que o clube transitasse do inferno da Série C para a elite com a dignidade de quem sabe o caminho de casa. E não se engane: enfrentar orçamentos bilionários com uma folha salarial modesta não é estratégia, é guerrilha.

"O Criciúma não joga apenas contra 11 adversários. Joga contra a ideia de que o futebol pertence apenas às capitais."

Quando o Mundo Descobriu Santa Catarina

E então, houve o momento em que a realidade parecia ter falhado. Yannick Bolasie, ex-astro da Premier League, vestindo o manto tricolor. Parecia um delírio de videogame, mas era a prova definitiva de que a marca do Tigre havia rompido fronteiras. A presença de figuras internacionais no Heriberto Hülse validou o que o torcedor local já sabia: aquele gramado tem peso.

O impacto cultural foi imediato. A camisa do Criciúma, com suas cores vibrantes (amarelo, preto e branco), tornou-se um item cult, um símbolo de resistência estética em um mar de uniformes genéricos.

👀 Por que 'Tigre'?
A escolha do mascote não foi aleatória. Nos anos 50, o time era conhecido pela garra e combatividade, características associadas ao felino. Mas há uma lenda urbana local: dizem que a cor amarela e preta, além de remeter ao carvão e à riqueza (ouro), lembrava a pelagem de um tigre. O apelido pegou e virou a identidade visual mais forte do estado.

O Que Fica Para a História?

O que o Criciúma ensina ao Brasileirão vai além da tabela de classificação. Em um ecossistema dominado por SAFs (Sociedades Anônimas do Futebol) multimilionárias e marketing pasteurizado, o Tigre oferece algo cru, real e barulhento. O clube prova que o interior não é um coadjuvante passivo; é um protagonista que, quando ruge, faz as estruturas do eixo tremerem.

Talvez o futebol moderno precise menos de "superligas" e mais de noites de chuva no Heriberto Hülse. Porque, no fim das contas, o dinheiro compra taças, mas não compra a eletricidade de um estádio que pulsa no mesmo ritmo do coração de sua gente.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste

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