O Coxa e a Maldição do Ioiô: Quando o Couto Pereira vira sala de espera
Entre a euforia do acesso e a exaustão da repetição, a torcida alviverde vive um "Dejá-vu" cruel. O problema não é cair, é não saber como ficar em pé quando se levanta.

Imagine uma terça-feira fria em Curitiba. Daquelas que cortam a pele. Nas arquibancadas de cimento do Alto da Glória, um senhor ajeita o rádio de pilha enquanto o neto pergunta por que o jogo não é no domingo, contra o Flamengo ou o Palmeiras. A resposta desse avô carrega o peso de uma década inteira: "Estamos tomando impulso, meu filho". De novo.
Essa cena, repetida à exaustão no Couto Pereira, ilustra o drama do Coritiba. Não se trata apenas de jogar a Série B; trata-se da incapacidade crônica de sustentar a felicidade.
Para quem olha de fora, o Coxa virou o exemplo clássico do "clube Ioiô". Sobe, respira o ar rarefeito da elite, e despenca com a mesma velocidade (às vezes, com requintes de crueldade tática). Mas reduzir essa montanha-russa a má sorte é ignorar a erosão institucional que transformou um campeão brasileiro em um visitante intermitente da primeira divisão.
A Série B não é um castigo para o Coritiba; tornou-se um habitat indesejado, mas familiar. O desafio não é sair de lá, é esquecer o caminho de volta.
O custo invisível da instabilidade
Você pode culpar o treinador da vez ou a contratação daquele centroavante que chegou com fama de goleador e saiu com fama de cone. Mas o buraco é mais embaixo. A torcida coxa-branca sofre de uma fadiga emocional que nenhum plano de sócio-torcedor consegue curar facilmente.
Quando analisamos o desempenho recente, o padrão é assustadoramente rítmico. Não existe consolidação, apenas soluços de competência seguidos por apagões de gestão.
| Ano | Divisão | Resultado Final |
|---|---|---|
| 2020 | Série A | 19º (Rebaixado) |
| 2021 | Série B | 3º (Acesso) |
| 2022 | Série A | 15º (Sobreviveu) |
| 2023 | Série A | 19º (Rebaixado) |
| 2024 | Série B | Campanha oscilante |
A SAF e a promessa de redenção
E então veio a Treecorp. A transformação em SAF (Sociedade Anônima do Futebol) foi vendida como a panaceia, o remédio amargo, mas necessário para estancar a sangria. O discurso mudou? Sim. O dinheiro entrou? Também. Mas o futebol é um bicho teimoso que não respeita planilhas de Excel imediatamente.
A modernização administrativa colidiu de frente com a realidade do gramado. Reformular um elenco viciado em perder exige mais do que aporte financeiro; exige uma mudança cultural violenta. O torcedor, escaldado, oscila entre a esperança de um "projeto a longo prazo" e o pânico de ver o time empatar em casa com equipes que têm um décimo do orçamento.
O que poucos dizem em voz alta é que o Coritiba corre contra o relógio biológico de sua própria grandeza. Uma geração inteira de crianças curitibanas está crescendo vendo o rival levantar taças continentais enquanto o Coxa luta para garantir um lugar ao sol nas tardes de sábado. Isso é perda de capital humano. Isso é perda de relevância.
A montanha-russa precisa parar. Não no topo, porque o topo é consequência, mas em terra firme. O Coritiba precisa, desesperadamente, ser entediante. Um 10º lugar na Série A por três anos seguidos seria, hoje, o maior título que a torcida poderia comemorar.
Tactique, stats et mauvaise foi. Le sport se joue sur le terrain, mais se gagne dans les commentaires. Analyse du jeu, du vestiaire et des tribunes.

