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O Coxa e a Maldição do Ioiô: Quando o Couto Pereira vira sala de espera

Entre a euforia do acesso e a exaustão da repetição, a torcida alviverde vive um "Dejá-vu" cruel. O problema não é cair, é não saber como ficar em pé quando se levanta.

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Rafael TorresPeriodista
21 de febrero de 2026, 20:013 min de lectura
O Coxa e a Maldição do Ioiô: Quando o Couto Pereira vira sala de espera

Imagine uma terça-feira fria em Curitiba. Daquelas que cortam a pele. Nas arquibancadas de cimento do Alto da Glória, um senhor ajeita o rádio de pilha enquanto o neto pergunta por que o jogo não é no domingo, contra o Flamengo ou o Palmeiras. A resposta desse avô carrega o peso de uma década inteira: "Estamos tomando impulso, meu filho". De novo.

Essa cena, repetida à exaustão no Couto Pereira, ilustra o drama do Coritiba. Não se trata apenas de jogar a Série B; trata-se da incapacidade crônica de sustentar a felicidade.

Para quem olha de fora, o Coxa virou o exemplo clássico do "clube Ioiô". Sobe, respira o ar rarefeito da elite, e despenca com a mesma velocidade (às vezes, com requintes de crueldade tática). Mas reduzir essa montanha-russa a má sorte é ignorar a erosão institucional que transformou um campeão brasileiro em um visitante intermitente da primeira divisão.

A Série B não é um castigo para o Coritiba; tornou-se um habitat indesejado, mas familiar. O desafio não é sair de lá, é esquecer o caminho de volta.

O custo invisível da instabilidade

Você pode culpar o treinador da vez ou a contratação daquele centroavante que chegou com fama de goleador e saiu com fama de cone. Mas o buraco é mais embaixo. A torcida coxa-branca sofre de uma fadiga emocional que nenhum plano de sócio-torcedor consegue curar facilmente.

Quando analisamos o desempenho recente, o padrão é assustadoramente rítmico. Não existe consolidação, apenas soluços de competência seguidos por apagões de gestão.

AnoDivisãoResultado Final
2020Série A19º (Rebaixado)
2021Série B3º (Acesso)
2022Série A15º (Sobreviveu)
2023Série A19º (Rebaixado)
2024Série BCampanha oscilante

A SAF e a promessa de redenção

E então veio a Treecorp. A transformação em SAF (Sociedade Anônima do Futebol) foi vendida como a panaceia, o remédio amargo, mas necessário para estancar a sangria. O discurso mudou? Sim. O dinheiro entrou? Também. Mas o futebol é um bicho teimoso que não respeita planilhas de Excel imediatamente.

A modernização administrativa colidiu de frente com a realidade do gramado. Reformular um elenco viciado em perder exige mais do que aporte financeiro; exige uma mudança cultural violenta. O torcedor, escaldado, oscila entre a esperança de um "projeto a longo prazo" e o pânico de ver o time empatar em casa com equipes que têm um décimo do orçamento.

O que poucos dizem em voz alta é que o Coritiba corre contra o relógio biológico de sua própria grandeza. Uma geração inteira de crianças curitibanas está crescendo vendo o rival levantar taças continentais enquanto o Coxa luta para garantir um lugar ao sol nas tardes de sábado. Isso é perda de capital humano. Isso é perda de relevância.

A montanha-russa precisa parar. Não no topo, porque o topo é consequência, mas em terra firme. O Coritiba precisa, desesperadamente, ser entediante. Um 10º lugar na Série A por três anos seguidos seria, hoje, o maior título que a torcida poderia comemorar.

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Rafael TorresPeriodista

Periodista especializado en Deporte. Apasionado por el análisis de las tendencias actuales.