Sport

O Silêncio da Vitória: Por que a base do Palmeiras sofre mesmo quando ganha?

Eles venceram, mas saíram de campo de cabeça baixa. A campanha de 2026 na Copinha revela um novo fenômeno: a 'fadiga do milagre' em uma fábrica de talentos condenada à excelência absoluta.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste
15 janvier 2026 à 21:014 min de lecture
O Silêncio da Vitória: Por que a base do Palmeiras sofre mesmo quando ganha?

Imagine a cena: vestiário de Barueri, cheiro de gelol e adrenalina. O Palmeiras acaba de eliminar o Vitória nos pênaltis em uma noite sufocante de janeiro. A lógica do futebol dita que haja música, stories no Instagram e euforia. Mas o que se ouve é um silêncio denso, quase litúrgico. Por quê? Porque no universo paralelo da Academia de Futebol, ganhar jogando "apenas o suficiente" tornou-se um pecado capital.

A Copinha de 2026 não está sendo um torneio de futebol para o Alviverde; é um teste psicológico.

⚡ O essencial

  • O fato: O Palmeiras avançou na Copinha eliminando o Vitória, mas com uma atuação criticada publicamente pela própria diretoria.
  • O sintoma: João Paulo Sampaio, arquiteto da base, declarou que o time "não mereceu" passar. Uma honestidade brutal rara no meio.
  • O diagnóstico: A sombra das gerações de Endrick e Estêvão criou um padrão inalcançável para os garotos atuais, gerando uma pressão tóxica por "genialidade cotidiana".

Para entender o peso dessa camisa verde em 2026, precisamos voltar alguns capítulos. O Palmeiras acostumou o mercado (e sua torcida) com anomalias. Endrick não era um jogador de base; era um evento da natureza. Estêvão não jogava futebol; ele dançava no caos. Luís Guilherme era um velocista olímpico com chuteiras. Quando você serve caviar três anos seguidos, um prato de arroz com feijão bem feito parece ofensa culinária.

A geração atual — liderada por nomes como Victor Gabriel e Riquelme Fillipi — é talentosa. Em qualquer outro clube do Brasil, seriam tratados como joias. No Palmeiras pós-2024, são olhados com uma desconfiança cruel: "Certo, você é bom, mas cadê a mágica?".

"Nunca gostei de ganhar na base sem merecer. Parabéns ao Vitória pelo jogo. (...) Plantar bem para aprender na base que no profissional não tem meio-termo!" — João Paulo Sampaio, Coordenador da Base, após a classificação sofrida.

Essa frase de Sampaio caiu como uma bomba. Não foi um erro de relações públicas; foi uma aula de pedagogia de alto rendimento. Ele sabe que o mercado europeu não paga 60 milhões de euros por "vitórias nos pênaltis". Eles pagam pela dominância. O recado foi claro: a camisa ficou pesada demais para ombros normais? Ou será que normalizamos o excepcional?

A armadilha da hegemonia

O futebol brasileiro vive de ciclos, mas o Palmeiras tentou revogar essa lei. Ao transformar a base em uma fonte de receita vital (quase 1 bilhão de reais em vendas recentes), o clube inadvertidamente transformou seus garotos em ativos financeiros antes mesmo de serem atletas formados. Um erro de domínio de bola na Copinha hoje não é apenas um lance técnico; é uma desvalorização de ativo em tempo real na bolsa de valores do futebol.

👀 Quem são os sobreviventes da pressão?

Apesar da tensão, alguns nomes mostram casca grossa nesta Copinha 2026:

  • Victor Gabriel: Autor de gols decisivos, parece entender que a eficiência vale mais que o drible plástico.
  • Riquelme Fillipi: Traz a fantasia, mas oscila. É o termômetro do time: quando ele se diverte, o Palmeiras respira.
  • O Goleiro (Herói Anônimo): Nos pênaltis contra o Vitória, foi a lembrança de que times campeões também se fazem evitando gols, não só fazendo.

O que esta campanha revela não é uma crise técnica, mas uma crise de expectativa. O torcedor que antes se contentava em revelar um Vágner Love a cada década, hoje exige um novo Neymar a cada semestre. É insustentável.

Talvez o maior título que o Palmeiras possa conquistar em 2026 não seja a taça no Pacaembu (ou onde quer que a final pouse), mas sim a capacidade de humanizar seus processos. Permitir que seus garotos sejam imperfeitos, que ganhem "feio", que sofram contra o Vitória ou o Grêmio sem parecer que falharam na missão. Afinal, diamantes só se formam sob pressão, mas vidro sob pressão apenas quebra. A dúvida que fica no ar de Barueri é: de que material são feitos esses meninos?

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste

Tactique, stats et mauvaise foi. Le sport se joue sur le terrain, mais se gagne dans les commentaires. Analyse du jeu, du vestiaire et des tribunes.