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O Vazio em Bacabal: A invisibilidade das crianças que o Brasil esquece

Não é apenas um boletim de ocorrência perdido numa gaveta. É a cadeira vazia na escola e o quarto intacto que denunciam um abismo na segurança pública do interior maranhense.

MC
Myriam CohenJournaliste
16 janvier 2026 à 14:013 min de lecture
O Vazio em Bacabal: A invisibilidade das crianças que o Brasil esquece

Imagine o silêncio. Não aquele da madrugada, mas o silêncio pesado que se instala na sala de uma casa no bairro da Areia, em Bacabal, quando o relógio marca 19h e o portão não bate. É o horário da volta da escola. Para nós, que observamos de longe, as estatísticas são frias. Para quem vive ali, à margem dos holofotes da grande mídia, cada minuto é uma tortura que dilacera a alma.

O drama recente vivido por famílias no interior do Maranhão não é um "caso isolado" (a desculpa favorita dos assessores de imprensa). É um sintoma. Quando uma criança desaparece em grandes centros, há câmeras de segurança, rastreamento de celular, comoção nacional. Em Bacabal? Muitas vezes, resta apenas a sola de sapato gasta dos pais que se transformam em investigadores por desespero.

“A pior morte não é a física, é a da esperança que te acorda todo dia achando que hoje ele volta, e te derruba toda noite quando a cama continua vazia.”

A estrutura de segurança pública no Brasil opera em duas velocidades cruéis. Enquanto a tecnologia de ponta chega às capitais, o interior lida com delegacias que fecham aos fins de semana ou sistemas que não se comunicam. O desaparecimento em Bacabal expõe uma ferida exposta: a burocracia que mata as chances de localização nas primeiras 48 horas, o período de ouro da investigação.

O Abismo da Investigação

Para entender a disparidade, basta olhar para o abismo entre o protocolo ideal e a realidade do interior nordestino:

FatorCapital / Área NobreInterior / Periferia
Registro (BO)Imediato, digital, integrado.Presencial, muitas vezes desencorajado ("aguarde voltar").
TecnologiaCâmeras OCR, rastreio de sinal.Testemunho oral e cartazes em postes.
MobilizaçãoMídia nacional imediata.Rádios locais e grupos de WhatsApp.

E aqui entra o perigo invisível: o vácuo de informação oficial é preenchido pelo pânico. Sem respostas da polícia, lendas urbanas sobre vans brancas e tráfico de órgãos (que raramente se confirmam, mas aterrorizam) ganham tração no WhatsApp. Isso ajuda? Pelo contrário. Gera linchamentos de inocentes e polui as linhas de denúncia com pistas falsas.

O que acontece em Bacabal revela que certas dores no Brasil têm CEP. A criança do interior não luta apenas contra quem a levou (seja um sequestrador, um aliciador online ou, tragicamente, um familiar abusador); ela luta contra a invisibilidade geográfica. Onde está o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas funcionando plenamente? Onde está a integração interestadual que impediria que alguém cruzasse a fronteira do Maranhão sem ser notado?

As mães de Bacabal não pedem favor. Exigem o básico: que seus filhos sejam procurados com o mesmo rigor técnico de um caso na Avenida Paulista. Enquanto a segurança pública for seletiva, continuaremos colecionando quartos vazios e perguntas sem resposta.

MC
Myriam CohenJournaliste

Le pouls de la rue, les tendances de demain. Je raconte la société telle qu'elle est, pas telle qu'on voudrait qu'elle soit. Enquête sur le réel.