Monde

Peru: O Trono Ejetável e a Ditadura do Congresso

Com a queda de José Jerí após apenas quatro meses, o Peru confirma sua nova tradição política: presidentes descartáveis e uma crise institucional que deixou de ser acidente para virar método de governo.

JV
Jérôme VignalJournaliste
18 février 2026 à 08:024 min de lecture
Peru: O Trono Ejetável e a Ditadura do Congresso

E lá vamos nós de novo. Se você piscou, perdeu o mandato de José Jerí. O agora ex-presidente do Peru durou exatos quatro meses no cargo antes de ser devorado pela mesma máquina trituradora que o colocou lá: o Congresso. A notícia de terça-feira (17) não é surpreendente; é cansativamente previsível.

A destituição de Jerí por 75 votos a 24 sob a acusação de "incapacidade moral" — o termo guarda-chuva favorito da política peruana para "não gostamos mais de você" — sela um ciclo de instabilidade que faria roteiristas de House of Cards pedirem demissão por falta de criatividade. O estopim? O chamado Chifagate. Reuniões secretas com empresários chineses e contratações questionáveis. Mas sejamos honestos: no Peru, o escândalo da vez é apenas o pretexto para acionar a guilhotina.

⚡ O essencial

  • O Fato: José Jerí foi destituído em 17 de fevereiro de 2026 após 4 meses de mandato interino.
  • O Motivo Oficial: "Chifagate" (reuniões clandestinas com empresários chineses).
  • O Contexto: É o segundo presidente a cair em menos de 6 meses (após Dina Boluarte em outubro de 2025).
  • O Futuro Imediato: Eleições gerais marcadas para abril, mas o país segue em vácuo de poder.

Para o observador externo, parece uma comédia de erros. Para os peruanos, é uma tragédia grega em loop. Jerí, que assumiu após a queda de Dina Boluarte em outubro passado, era o "homem do sistema", o ex-presidente do Congresso que deveria garantir a transição até as eleições de abril. Nem isso foi permitido.

"A presidência do Peru se tornou o emprego temporário mais perigoso da América Latina. O ocupante muda, mas a verdadeira instabilidade reside no Parlamento unicameral que detém o gatilho nuclear da vacância."

A Canibalização do Executivo

O que estamos assistindo não é apenas uma sucessão de líderes corruptos ou ineptos (embora haja muitos). É um defeito de fábrica da Constituição de 1993. A figura da "vacância por incapacidade moral permanente" permite que o Legislativo demita o Chefe de Estado sem necessidade de um processo judicial robusto. Basta ter os votos. E o Congresso peruano sempre tem os votos quando o cheiro de sangue aparece na água.

Fernando Rospigliosi, o conservador que deveria ser o próximo na linha sucessória, recusou a presidência. Quem pode culpá-lo? Sentar na cadeira de Pizarro hoje é garantir um processo judicial amanhã. (Ou a prisão, destino comum dos ex-presidentes peruanos).

DADOS: A Dança das Cadeiras (2021-2026)

Compare a volatilidade dos últimos ocupantes do Palácio do Governo. A longevidade é um luxo que o Peru não tem.

PresidentePeríodoFim do Mandato
Pedro CastilloJul 2021 - Dez 2022Destituído / Preso
Dina BoluarteDez 2022 - Out 2025Destituída
José JeríOut 2025 - Fev 2026Destituído (Express)
???Fev 2026 - ???Aguardando a próxima vítima

O Jogo de Sombras Geopolítico

Enquanto Lima brinca de cadeiras musicais, o mundo observa com interesse predatório. O "Chifagate" não é trivial. Envolve reuniões não declaradas com empresários chineses ligados a projetos de infraestrutura. O Peru é uma peça chave na iniciativa Belt and Road da China na América do Sul (lembrem-se do porto de Chancay). A queda de Jerí, sob a acusação de proximidade tóxica com interesses chineses, levanta sobrancelhas em Washington e Pequim.

Seria ingenuidade achar que isso é puramente política doméstica? Talvez. Mas em um país onde a economia macro segue estável "no piloto automático" enquanto a política incendeia, a disputa por influência sobre os recursos minerais continua nos bastidores, independentemente de quem usa a faixa presidencial por 15 minutos.

E agora?

As eleições de abril estão logo ali. Mas o que elas mudarão? Se o novo Congresso mantiver a fragmentação atual — e vai manter —, o próximo presidente eleito já assumirá com o alvo nas costas. A instabilidade no Peru deixou de ser uma crise; ela é o sistema operacional. O país sobrevive apesar dos seus políticos, não por causa deles.

JV
Jérôme VignalJournaliste

Je décrypte le chaos mondial entre deux escales. Géopolitique acerbe pour citoyens du monde pressés. Correspondant permanent là où ça chauffe.