Peru: O Trono Ejetável e a Ditadura do Congresso
Com a queda de José Jerí após apenas quatro meses, o Peru confirma sua nova tradição política: presidentes descartáveis e uma crise institucional que deixou de ser acidente para virar método de governo.

E lá vamos nós de novo. Se você piscou, perdeu o mandato de José Jerí. O agora ex-presidente do Peru durou exatos quatro meses no cargo antes de ser devorado pela mesma máquina trituradora que o colocou lá: o Congresso. A notícia de terça-feira (17) não é surpreendente; é cansativamente previsível.
A destituição de Jerí por 75 votos a 24 sob a acusação de "incapacidade moral" — o termo guarda-chuva favorito da política peruana para "não gostamos mais de você" — sela um ciclo de instabilidade que faria roteiristas de House of Cards pedirem demissão por falta de criatividade. O estopim? O chamado Chifagate. Reuniões secretas com empresários chineses e contratações questionáveis. Mas sejamos honestos: no Peru, o escândalo da vez é apenas o pretexto para acionar a guilhotina.
⚡ O essencial
- O Fato: José Jerí foi destituído em 17 de fevereiro de 2026 após 4 meses de mandato interino.
- O Motivo Oficial: "Chifagate" (reuniões clandestinas com empresários chineses).
- O Contexto: É o segundo presidente a cair em menos de 6 meses (após Dina Boluarte em outubro de 2025).
- O Futuro Imediato: Eleições gerais marcadas para abril, mas o país segue em vácuo de poder.
Para o observador externo, parece uma comédia de erros. Para os peruanos, é uma tragédia grega em loop. Jerí, que assumiu após a queda de Dina Boluarte em outubro passado, era o "homem do sistema", o ex-presidente do Congresso que deveria garantir a transição até as eleições de abril. Nem isso foi permitido.
"A presidência do Peru se tornou o emprego temporário mais perigoso da América Latina. O ocupante muda, mas a verdadeira instabilidade reside no Parlamento unicameral que detém o gatilho nuclear da vacância."
A Canibalização do Executivo
O que estamos assistindo não é apenas uma sucessão de líderes corruptos ou ineptos (embora haja muitos). É um defeito de fábrica da Constituição de 1993. A figura da "vacância por incapacidade moral permanente" permite que o Legislativo demita o Chefe de Estado sem necessidade de um processo judicial robusto. Basta ter os votos. E o Congresso peruano sempre tem os votos quando o cheiro de sangue aparece na água.
Fernando Rospigliosi, o conservador que deveria ser o próximo na linha sucessória, recusou a presidência. Quem pode culpá-lo? Sentar na cadeira de Pizarro hoje é garantir um processo judicial amanhã. (Ou a prisão, destino comum dos ex-presidentes peruanos).
DADOS: A Dança das Cadeiras (2021-2026)
Compare a volatilidade dos últimos ocupantes do Palácio do Governo. A longevidade é um luxo que o Peru não tem.
| Presidente | Período | Fim do Mandato |
|---|---|---|
| Pedro Castillo | Jul 2021 - Dez 2022 | Destituído / Preso |
| Dina Boluarte | Dez 2022 - Out 2025 | Destituída |
| José Jerí | Out 2025 - Fev 2026 | Destituído (Express) |
| ??? | Fev 2026 - ??? | Aguardando a próxima vítima |
O Jogo de Sombras Geopolítico
Enquanto Lima brinca de cadeiras musicais, o mundo observa com interesse predatório. O "Chifagate" não é trivial. Envolve reuniões não declaradas com empresários chineses ligados a projetos de infraestrutura. O Peru é uma peça chave na iniciativa Belt and Road da China na América do Sul (lembrem-se do porto de Chancay). A queda de Jerí, sob a acusação de proximidade tóxica com interesses chineses, levanta sobrancelhas em Washington e Pequim.
Seria ingenuidade achar que isso é puramente política doméstica? Talvez. Mas em um país onde a economia macro segue estável "no piloto automático" enquanto a política incendeia, a disputa por influência sobre os recursos minerais continua nos bastidores, independentemente de quem usa a faixa presidencial por 15 minutos.
E agora?
As eleições de abril estão logo ali. Mas o que elas mudarão? Se o novo Congresso mantiver a fragmentação atual — e vai manter —, o próximo presidente eleito já assumirá com o alvo nas costas. A instabilidade no Peru deixou de ser uma crise; ela é o sistema operacional. O país sobrevive apesar dos seus políticos, não por causa deles.