Sarampo: O álibi das Fake News esconde o verdadeiro colapso logístico
Culpar apenas o 'zap' da tia é confortável para Brasília. Mas a volta do sarampo expõe uma ferida muito mais profunda: o SUS parou no tempo enquanto o vírus evoluía.

Em 2016, o Brasil ergueu a taça: certificado de eliminação do sarampo. Três anos depois, perdemos o título com a vergonha de quem é rebaixado no campeonato nacional. A narrativa oficial? "Culpa das Fake News". "O movimento antivacina". É sedutor, eu sei. É fácil apontar o dedo para o tio do WhatsApp que acredita em chip líquido. Mas, se você olhar para os números frios (e para a porta fechada do posto de saúde às 17h), a história é outra. O buraco é mais embaixo, e ele tem cheiro de ineficiência estatal.
A cortina de fumaça digital
Não sejamos ingênuos: a desinformação mata. O algoritmo que prioriza o medo em detrimento da ciência tem sangue nas mãos. Porém, transformar a mentira digital no único vilão é um movimento político calculado. Serve como um escudo perfeito para gestores públicos.
Enquanto discutimos a terra plana, ignoramos que a cadeia de frio — a logística que mantém a vacina viável do laboratório até o braço da criança no interior do Amazonas — está caindo aos pedaços em diversos municípios. De que adianta convencer a mãe a vacinar se, ao chegar no posto, a geladeira pifou ou a enfermeira está sobrecarregada preenchendo formulários de papel do século passado?
| Narrativa Oficial (O que te vendem) | Realidade no Chão de Fábrica (O que acontece) |
|---|---|
| "A população não vai porque acredita em mentiras." | A população pobre não vai porque o posto fecha antes do fim do expediente de trabalho. |
| "Temos doses suficientes para todos." | As doses existem, mas a distribuição trava no 'last mile' (última milha) em áreas remotas. |
| "Estamos monitorando os focos." | O sistema de notificação é lento e reativo, agindo quando o surto já se espalhou. |
O SUS é incrível, mas parou no tempo
O Sistema Único de Saúde é uma conquista civilizatória (disso ninguém duvida). Mas ele foi desenhado para um Brasil que não existe mais. O Brasil de 2024 é o país da uberização, da mãe solo que trabalha em dois turnos, da família que mora em área de milícia onde o agente de saúde não entra.
Exigir que essa população se desloque até uma unidade básica em horário comercial é, no mínimo, cruel. É um desafio logístico que exige busca ativa, vacinação em escolas, em estações de metrô, em shopping centers no domingo. Mas isso custa caro. Dá trabalho. Exige hora extra. É mais barato culpar o Facebook.
O sarampo é um vírus honesto: ele não precisa de passaporte nem de ideologia, ele só precisa de uma brecha administrativa para entrar.
A falsa segurança dos números
E tem mais uma coisa que quase ninguém comenta: a nossa base de dados é uma peneira. As taxas de cobertura vacinal são estimativas baseadas em censos que envelhecem mal. Em muitas capitais, não sabemos realmente quantas crianças nasceram na periferia não regularizada. Estamos pilotando um avião no meio da tempestade com o altímetro quebrado, achando que estamos a 95% de altitude segura, quando talvez estejamos rasgando as árvores a 70%.
Recuperar o certificado de país livre do sarampo não vai acontecer com hashtags bonitas ou influenciadores digitais fazendo dancinha. Vai acontecer quando admitirmos que nossa logística de imunização precisa de um choque de gestão, não apenas de um departamento de marketing.
Le pouls de la rue, les tendances de demain. Je raconte la société telle qu'elle est, pas telle qu'on voudrait qu'elle soit. Enquête sur le réel.


