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AS Roma: O calvário de um império que só existe nas arquibancadas

Torcer para os Giallorossi exige o estoicismo de um imperador e a fé de um mártir. Uma análise sobre como a marca 'Roma' transcende o futebol, enquanto o time tropeça na própria sombra.

TR
Taufik Rahman
9 Februari 2026 pukul 20.013 menit baca
AS Roma: O calvário de um império que só existe nas arquibancadas

Imagine Giovanni. Ele tem 72 anos, mora no bairro de Testaccio e, todo domingo, veste um cachecol que já viu dias melhores (talvez na época de Falcão, o Rei de Roma). Giovanni sobe as escadas do Stadio Olimpico não com a esperança de vitória, mas com a resignação de quem cumpre um ritual religioso. Ele sabe o que vai acontecer. A Roma vai jogar bem, iludir, e depois entregar o ouro num erro defensivo grotesco aos 89 minutos. Essa é a essência.

A AS Roma não é apenas um clube de futebol; é um estudo de caso psicanalítico.

“A Roma não se discute, se ama. Porque se formos discutir racionalmente, fechamos o clube amanhã.” — Ditado popular na Curva Sud

Há um abismo, talvez o maior do futebol mundial, entre a mística que o nome "Roma" carrega e a realidade nua e crua da tabela da Serie A. De um lado, você tem a Cidade Eterna, o peso de três milênios de história, o glamour cinematográfico e uma das torcidas mais apaixonadas (e barulhentas) do planeta. Do outro? Uma sala de troféus que acumula poeira e "quase vitórias".

O Marketing do Coliseu vs. A Realidade do Campo

Os donos americanos — primeiro Pallotta, agora os Friedkin — entenderam rapidamente que a marca Roma é global. Eles vendem a experiência, o gladiador, o escudo da loba. Mas esqueceram de avisar ao departamento de futebol que a história não ganha jogo. O projeto esportivo vive de soluços.

A contratação de José Mourinho foi o ápice dessa dicotomia: trouxe uma taça europeia (a Conference League), é verdade, mas mascarou anos de gestão técnica questionável com carisma e coletivas de imprensa incendiárias. Quando a fumaça se dissipou, restou um elenco caro, desequilibrado e a eterna dependência emocional de figuras que já não jogam mais (a sombra de Totti e De Rossi é, ironicamente, tanto um escudo quanto uma âncora).

Dados: A Discrepância Romana

Para entender o tamanho da frustração, basta olhar os números frios que Giovanni tenta ignorar enquanto canta o hino Roma Roma Roma.

IndicadorAS Roma (Percepção)Realidade (Últimos 20 anos)
Paixão da TorcidaTop 5 Europa (Sempre lotado)Média de público: 62.000+
Valor de MarcaGigante Global (Glamour)Receitas estagnadas sem Champions
Títulos NacionaisCandidato ao Scudetto0 (Último em 2001)
Estabilidade TécnicaProjeto Sólido14 treinadores diferentes

O que sustenta esse edifício, que por lógica de mercado já deveria ter implodido? O pertencimento. Ser romanista é, antes de tudo, um ato de resistência contra o poder do Norte (Juventus, Inter, Milan). É abraçar a narrativa de que o mundo está contra nós, de que os árbitros são ladrões e de que a próxima temporada — ah, a próxima temporada! — será diferente.

Mas o futebol moderno é cruel com o romantismo. Sem a receita da Champions League, o clube vive num purgatório financeiro, obrigado a vender suas joias para fechar o balanço (Salah, Alisson, Marquinhos... a lista de "ex-romanos" que ganharam tudo fora dali é dolorosa). A mística da cidade atrai turistas para a loja oficial, vende camisas bonitas, mas não compra zagueiros que saibam sair jogando.

Giovanni vai continuar subindo as escadas do Olimpico. Não pelos três pontos, mas porque, naquele estádio, entre a fumaça dos sinalizadores e a decepção iminente, ele se sente parte de algo maior que a mediocridade do placar. A Roma é eterna, dizem. O sofrimento também.

TR
Taufik Rahman

Jurnalis yang berspesialisasi dalam Olahraga. Bersemangat menganalisis tren terkini.