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BBB: O Coliseu Digital e nossa sede por sangue no horário nobre

Não é apenas entretenimento. O 'paredão da morte' revela uma sociedade viciada em extremos, onde a nuance é a primeira eliminada.

SA
Siti Aminah
22 Februari 2026 pukul 02.013 menit baca
BBB: O Coliseu Digital e nossa sede por sangue no horário nobre

Eram 23h45 de uma terça-feira qualquer. No sofá, uma família que mal concorda sobre o que jantar estava unida por um silêncio sepulcral. Na tela, o apresentador (uma espécie de oráculo moderno em sapatênis) prolongava as sílabas finais antes de anunciar quem deixaria a casa. O coração disparado daquela senhora no Rio de Janeiro não era por um parente no hospital, mas por um estranho confinado a quilômetros dali. Quando o veredito saiu, ouviu-se gritos na vizinhança. Fogos, até.

Essa cena, repetida anualmente como um ritual religioso profano, ilustra perfeitamente o que chamamos de "duelo de risco". Mas não se engane achando que isso é sobre quem ganha o prêmio milionário.

“Nós não assistimos ao BBB para ver justiça. Assistimos para ver a guilhotina cair e sentir o alívio de que, desta vez, não somos nós os condenados.”

O conceito de narrativa extrema tomou de assalto nossa cognição. Antigamente, aceitávamos personagens cinzentos em novelas. Hoje? No reality, exigimos a pureza absoluta ou a vilania caricata. O participante que tenta ponderar (o famoso "sabonete") é eliminado com rejeição recorde. Por quê? Porque a nuance nos obriga a pensar, e pensar cansa. O extremo, por outro lado, nos permite sentir. E o ódio, meus caros, é um combustível muito mais potente que a empatia nas redes sociais.

Os duelos de risco — aqueles paredões entre dois favoritos ou dois rivais históricos — funcionam como válvulas de escape para uma sociedade polarizada. Projetamos no "Mocinho" nossas virtudes idealizadas e no "Vilão" tudo aquilo que detestamos no vizinho, no chefe ou no político de oposição. A casa de vidro vira um tabuleiro onde jogamos xadrez com peças humanas, sem o peso moral de destruir uma vida real (ou assim gostamos de acreditar).

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A neurociência explica: o conflito gera antecipação. Quando dois gigantes do jogo colidem, nosso cérebro libera dopamina na expectativa da resolução e, subsequentemente, oxitocina quando nosso 'clã' (fandom) vence. É a mesma mecânica dos estádios de futebol, mas transmitida 24 horas por dia e editada para maximizar o drama.

O que poucos dizem, no entanto, é o custo dessa brincadeira. A narrativa extrema exige sangue. Para que um herói se erga, alguém precisa ser triturado publicamente. O cancelamento não é um acidente de percurso; é a demanda do mercado. Nós somos os acionistas dessa empresa de destruição de reputações.

Quando a tela se apaga e voltamos para nossas vidas medíocres, a sensação de vazio permanece. O duelo de risco acabou, a "justiça" foi feita via votação popular, mas a nossa sede por narrativas binárias continua intacta, pronta para ser saciada na próxima polêmica do Twitter ou na próxima urna eleitoral. O BBB não cria monstros; ele apenas aluga um espelho de alta definição para que possamos encará-los no conforto do ar-condicionado.

SA
Siti Aminah

Jurnalis yang berspesialisasi dalam Masyarakat. Bersemangat menganalisis tren terkini.