Cruzeiro: O delírio financeiro de Pedrinho ou uma aula de ambição?
A Raposa trocou a planilha de Excel de Ronaldo pelo talão de cheques ilimitado de Pedro Lourenço. Mas quando a poeira das contratações baixar, a conta vai fechar?

Desconfie de milagres. Especialmente no futebol brasileiro, onde a gestão emocional costuma atropelar a razão contábil com a sutileza de um trator. O Cruzeiro, que até ontem contava as moedas para pagar a conta de luz na Toca da Raposa sob a tutela gélida de Ronaldo Fenômeno, subitamente se transformou no primo rico da Série A. A pergunta que ninguém quer fazer enquanto grita gol no Mineirão é: isso é real?
A transição da SAF para as mãos de Pedro Lourenço, o "Pedrinho BH", não foi apenas uma troca de CNPJ. Foi uma mudança teológica. Saímos do dogma da austeridade (necessária, diga-se) para o culto ao imediatismo.
A Dança dos Milhões
Não se deixem enganar pela euforia das redes sociais. O modelo de Ronaldo era impopular, chato, mas possuía uma lógica de mercado: gastar menos do que se arrecada. O modelo atual? Parece uma aposta de all-in no pôquer.
Vejamos a discrepância brutal de filosofias. De um lado, tínhamos o "corte na carne". Do outro, temos salários astronômicos para jogadores que, convenhamos, já viveram dias melhores (ou que ainda precisam provar que valem o PIB de um pequeno município).
| Critério | Era Ronaldo (O Gestor) | Era Pedrinho (O Torcedor) |
|---|---|---|
| Foco | Sanear Dívidas | Títulos Imediatos |
| Perfil de Contratação | Apostas, base e baixo custo | Medalhões e grife (Cássio, Matheus H.) |
| Risco Financeiro | Baixo (Controlado) | Altíssimo (Dependência do Mecenas) |
O perigo aqui não é o investimento em si. O futebol precisa de dinheiro. O perigo é a origem desse dinheiro. O Cruzeiro hoje não opera com receitas orgânicas (bilheteria, TV, marketing) suficientes para cobrir essa folha salarial inflada. O clube respira por aparelhos ligados diretamente ao caixa dos Supermercados BH.
O que acontece se o varejo entrar em crise? Ou se Pedrinho acordar um dia e decidir que prefere investir em gado? O Cruzeiro voltou ao modelo de dependência de um "salvador da pátria", o velho mecenato travestido de modernidade corporativa.
"O dinheiro não aceita desaforo, e a torcida tem memória curta. A linha entre ser um gigante renascido e um novo rico falido é mais tênue do que a defesa celeste em dia ruim."
A Recuperação Judicial ainda está lá, rondando como um fantasma. As dívidas tributárias não desapareceram num passe de mágica só porque trouxeram reforços da Europa. Estamos vendo um clube alavancado, operando no vermelho operacional, sustentado por aporte de capital externo.
Isso é sustentável? A matemática diz que não. A menos que esses investimentos se convertam em títulos (e premiações milionárias) imediatamente. É uma roleta russa financeira.
Se a bola entrar, Pedrinho será canonizado e os céticos (como eu) serão ridicularizados. Se a bola bater na trave... bem, já vimos esse filme antes, e o final envolve rebaixamento e choro. O Cruzeiro hoje não é um modelo de gestão; é um experimento de alto risco a céu aberto.


