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Energisa: O império da luz e a escuridão no bolso do sertanejo

Enquanto os relatórios trimestrais celebram dividendos recordes, o interior do Brasil escolhe entre comer ou manter a geladeira ligada. O monopólio natural virou um calvário artificial?

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Agus Wijaya
6 Februari 2026 pukul 14.013 menit baca
Energisa: O império da luz e a escuridão no bolso do sertanejo

Eles chamam de "reajuste tarifário anual". Quem vive no chão rachado do sertão ou nos rincões do Centro-Oeste tem outro nome para isso: extorsão legalizada. A Energisa, gigante que detém o monopólio da distribuição em vastas áreas do território nacional, apresenta-se como um vetor de modernidade. Falam em smart grids e digitalização. Mas, se olharmos com a lupa do ceticismo (aquela que os reguladores parecem ter perdido na gaveta), o que vemos é uma transferência brutal de renda das regiões mais pobres para os cofres de acionistas blindados.

A premissa do setor elétrico é a do "monopólio natural". Faz sentido, em teoria: não é viável passar cinco cabos de empresas diferentes na mesma rua. Porém, quando o regulador — a ANEEL — atua com a ferocidade de um bicho-preguiça sedado, o monopólio deixa de ser uma necessidade técnica para virar uma arma de subjugação econômica.

"No Brasil, o setor elétrico privatizou os lucros e socializou a ineficiência. O consumidor não é um cliente; é um refém conectado por um fio."

A matemática que não fecha (para você)

Observe os balanços. O Grupo Energisa reporta lucros líquidos na casa dos bilhões, ano após ano. Agora, tente explicar essa bonança financeira para um agricultor em Sousa, na Paraíba, ou para um comerciante em Cuiabá, no Mato Grosso. A conta de luz nessas regiões não é apenas uma despesa; é, muitas vezes, o segundo maior custo familiar, perdendo apenas para a alimentação (e olhe lá).

Como é possível que estados produtores de energia paguem tarifas tão exorbitantes? A culpa é sempre jogada na carga tributária ou na "complexidade do sistema". É a desculpa perfeita. Esconde-se o fato de que as revisões tarifárias periódicas quase sempre favorecem a concessionária, garantindo o equilíbrio econômico-financeiro da empresa, enquanto o equilíbrio financeiro da família brasileira que se exploda.

DADOS: O abismo da tarifa

A disparidade é gritante quando comparamos a realidade da área de concessão com o retorno oferecido. Veja este comparativo simplificado que ilustra a desconexão entre o serviço e a realidade local:

IndicadorPerspectiva da ConcessionáriaRealidade do Consumidor
Reajuste AnualCorreção necessária pela inflação (IGPM/IPCA)Aumento acima do salário mínimo
Corte de LuzProcedimento padrão de inadimplênciaPerda de alimentos em 48h (Calor de 40°C)
Lucro LíquidoSinal de gestão eficiente e robustezDinheiro drenado da economia local

Onde está o fiscal?

O ponto mais crítico não é a empresa querer lucrar (é a natureza do capitalismo, gostemos ou não), mas a ausência de um contrapeso real. As agências reguladoras no Brasil sofrem de uma captura crônica. As audiências públicas para discutir aumentos parecem teatrinhos ensaiados onde o roteiro já está escrito: a tarifa vai subir. O "Gato" (furto de energia) é usado como justificativa para punir quem paga em dia, num ciclo vicioso onde a ineficiência da fiscalização da empresa vira custo na sua fatura.

E o futuro? Com a revolução da energia solar, quem tem capital está fugindo da rede (o tal grid defection). Quem sobra para pagar a conta da infraestrutura pesada da Energisa? Exatamente. O sertanejo, o pobre, aquele que não tem R$ 15 mil para instalar painéis fotovoltaicos. Estamos criando um apartheid energético sob o sol mais forte do planeta.

Resta saber até quando a corda estica antes de arrebentar. Porque, no escuro, ninguém vê a cor do dinheiro, mas todos sentem a falta dele.

AW
Agus Wijaya

Jurnalis yang berspesialisasi dalam Ekonomi. Bersemangat menganalisis tren terkini.