Manchester City: A Máquina Perfeita que Ninguém Aprendeu a Amar?
Eles ganharam tudo. Quebraram recordes. Reescreveram a tática. Mas por que o reinado do lado azul de Manchester parece tão... asséptico? Uma autópsia do sucesso sem alma.

Assistir a um jogo do Manchester City hoje é, muitas vezes, uma experiência anestésica. A bola circula com uma precisão de laboratório, os movimentos são coreografados como um balé soviético e o gol, quando sai, parece menos uma explosão de alegria e mais o cumprimento inevitável de uma burocracia bem executada. Pep Guardiola construiu uma utopia futebolística ou distopia? Depende de quanto você valoriza o caos.
Não se enganem. O que vemos no Etihad Stadium é a excelência técnica em seu estado mais puro. Mas há um paradoxo irritante flutuando sobre o lado azul de Manchester: quanto mais eles vencem, menos o mundo parece se importar. O Treble? Um dia normal no escritório. O tetracampeonato inglês? Quase um bocejo protocolar.
O Elefante na Sala de Troféus
Seria desonesto — e francamente ingênuo — analisar a hegemonia dos Citizens ignorando a nuvem negra que paira sobre o estádio (e não estou falando do clima britânico). As 115 acusações de violação financeira não são apenas notas de rodapé jurídicas; são o asterisco mental que todo rival coloca ao lado de cada taça levantada por Kevin De Bruyne.
"O City não apenas venceu o futebol; eles resolveram o jogo. E quando você resolve um quebra-cabeça, a graça de tentar montá-lo desaparece."
Essa desconfiança alimenta a narrativa de que o City é um clube "de plástico", um brinquedo de estado transformado em multinacional de entretenimento. O City Football Group não gere um time, gere uma franquia global onde Nova York, Melbourne e Girona são apenas filiais de um algoritmo centralizado.
A Esterilização da Emoção
O problema talvez não seja o dinheiro (o futebol vendeu sua alma muito antes dos petrodólares entrarem em cena), mas a eficiência clínica. O City de Guardiola removeu o erro da equação. E o que é o esporte sem o erro? Sem a falha humana, trágica, que nos faz prender a respiração?
| O City "Raiz" (Maine Road) | O Império (Etihad) |
|---|---|
| Imprevisível, caótico, tragicômico | Cirúrgico, dominante, inevitável |
| Identidade local forte (Gallagher) | Marca global asséptica |
| Lutava para não cair | Luta contra o tédio da vitória |
Antigamente, ser torcedor do City era um exercício de masoquismo e humor negro. Havia caráter na derrota. Hoje, a perfeição técnica criou um vácuo emocional. O estádio, muitas vezes criticado pela falta de atmosfera (o cruel apelido "Emptihad"), reflete essa nova realidade: uma ópera silenciosa onde se admira a técnica, mas raramente se perde a voz.
Identidade à Venda?
O que resta quando a poeira dos títulos baixa? O Manchester City está numa encruzilhada existencial. Eles provaram que podem comprar os melhores pés e contratar o melhor cérebro tático da história. Mas a história, a mística, o peso da camisa... isso se compra? O Real Madrid tem o peso da realeza. O Liverpool tem o peso da tragédia e da paixão operária. O City tem o peso da eficiência.
Talvez esse seja o destino do futebol moderno: clubes que funcionam como empresas de tecnologia do Vale do Silício. Impecáveis, ricos, onipresentes, mas frios ao toque. O City é o campeão que ninguém pediu, mas que ninguém consegue parar. E talvez, no fundo, essa seja a maior vitória deles: nos obrigar a assistir à perfeição até que ela se torne insuportável.


