Serna e a Roleta Russa dos Andes: O Fluminense é Gênio ou Refém do Acaso?
Kevin Serna custou uma fração de um atacante mediano da Série A e entrega o dobro. Mas não se engane: o sucesso do colombiano expõe mais as feridas do nosso mercado do que a virtude dos nossos olheiros.

É fácil olhar para os números de Kevin Serna hoje e aplaudir a "visão de mercado" da diretoria tricolor. O colombiano, pescado no Alianza Lima por cerca de €1,6 milhão, tornou-se uma peça vital na engrenagem de Mano Menezes (e depois de quem vier). Mas vamos ser honestos por um minuto? O sucesso de Serna não é uma prova de competência sistêmica; é um sintoma de um mercado brasileiro inflacionado e preguiçoso.
O Fluminense não contratou Serna porque monitorava o Campeonato Peruano com drones de alta tecnologia há três anos. Contratou porque ele infernizou a defesa tricolor na Libertadores. Foi o clássico "scouting presencial" — aquele feito no susto, quando o lateral adversário passa por você como se fosse um trem-bala. E funcionou. Desta vez.
O futebol brasileiro adora se vender como a "Premier League das Américas", mas continua comprando peças de reposição no vizinho porque não consegue pagar o preço da própria vitrine.
A narrativa oficial é bonita: "O Fluminense encontra valor onde ninguém vê". A realidade? O clube tenta desesperadamente replicar o efeito Jhon Arias. Arias foi um bilhete de loteria premiado que mudou a história do clube. Agora, cada ponta rápido que fala espanhol e custa menos de 2 milhões de euros vira automaticamente o "novo Arias". Serna, com seus 28 anos, não é uma promessa; é um produto acabado que atingiu o pico de maturação tardia. Sorte do Flu? Talvez.
Mas comparemos a eficiência do "modelo andino" com a insanidade do mercado interno. Enquanto o Tricolor gastou trocados (para os padrões atuais) em um titular absoluto, rivais queimam dezenas de milhões em repatriados que voltam da Europa para tratar lesões no departamento médico.
| Critério | Kevin Serna (O Achado) | Reforço Médio Série A (O Hype) |
|---|---|---|
| Custo Aproximado | € 1,6 Milhão | € 5 a 7 Milhões |
| Expectativa | Compor elenco | "Craque do Aeroporto" |
| Salário | Compatível (Dólar) | Inflacionado (Grife) |
| Retorno Esportivo | Imediato (Fome de bola) | Incerto (Adaptação/Ego) |
O perigo dessa estratégia é acreditar que ela é infalível. Para cada Serna ou Arias, existem dezenas de apostas sul-americanas que viram notas de rodapé em rescisões contratuais amigáveis. O assédio recente do Boca Juniors sobre o jogador já acende outro alerta: o Fluminense virou uma vitrine de revenda para o próprio continente? Antes, o objetivo era a Europa. Agora, segurar um destaque colombiano contra o peso da camisa do Boca já é uma batalha.
O que Serna traz ao campo — drible, velocidade, aquela urgência de quem sabe que esta é a chance da vida — é inegável. Mas não confundamos sobrevivência com estratégia. O Fluminense acerta nessas contratações porque não tem margem para errar nas grandes. É o xadrez da necessidade, onde o xeque-mate muitas vezes depende mais do erro do adversário (ou de um drible desconcertante de um colombiano) do que do seu próprio planejamento mestre.


