Sociedade

Anhembi 2026: O êxtase do ouro que encobre o barro de SP

Enquanto a bateria recua e os camarotes blindados brindam, o lado de fora do sambódromo narra uma história que nenhum enredo ousou contar. O contraste nunca foi tão violento.

MS
Maria Souza
21 de fevereiro de 2026 às 23:013 min de leitura
Anhembi 2026: O êxtase do ouro que encobre o barro de SP

Há algo de perversamente poético no Desfile das Campeãs deste ano. Enquanto você lê isto, a nata do samba paulistano se prepara para pisar no asfalto sagrado do Anhembi pela última vez em 2026, celebrando títulos, notas dez e uma estética impecável. Mas, se afastarmos o zoom da câmera do drone (aquela que a emissora oficial adora usar para esconder os buracos), o que vemos? Uma São Paulo que sangra.

Não me leve a mal, eu gosto de uma boa festa. Mas precisamos falar sobre a dissonância cognitiva de celebrar o luxo alegórico a menos de dois quilômetros de onde a cidade varre seus indesejados para baixo do tapete. O sambódromo, essa ilha de concreto e neon, tornou-se um bunker de alienação.

"O Carnaval de São Paulo profissionalizou-se tanto que esqueceu de convidar a cidade para a festa. Virou um evento de arena, não de rua."

Os números oficiais — aqueles que a Prefeitura vai soltar em um PowerPoint colorido na segunda-feira — falarão em "recorde de movimentação econômica". Vão citar os bilhões injetados no turismo. O que eles não colocam na planilha? O custo social da maquiagem urbana.

A Camarotezação da Existência

O fenômeno não é novo, mas em 2026 atingiu seu ápice grotesco. Os camarotes não são mais apenas lugares para ver o desfile; são ecossistemas herméticos desenhados para que o frequentador não precise interagir com a realidade do samba (ou da cidade). Ar-condicionado polar, isolamento acústico para quem não gosta de bateria (sim, isso existe) e ingressos que custam o equivalente a meses de aluguel na periferia.

E aqui entra o meu ceticismo crônico: para onde vai esse dinheiro? A narrativa do "retorno para a comunidade" sustenta-se até a página dois. As quadras evoluíram, claro, mas o abismo entre o componente da ala e o pagante do VIP virou um oceano.

Item (Custo Médio 2026)Valor Estimado (R$)Equivalência Social
Ingresso Camarote Super-PremiumR$ 4.500,003,5 Cestas Básicas completas
Fantasia Ala de ComunidadeGratuita (com contrapartida)Meses de ensaio obrigatório
Custo Limpeza Pós-Festa (Prefeitura)R$ 12 Milhões (est.)Reforma de 4 UBSs periféricas

O Rio Tietê não samba

Ao lado da passarela, o Rio Tietê continua morto, exalando aquele cheiro que nem o lança-perfume contrabandeado consegue disfarçar. É a cicatriz geográfica mais óbvia. Celebramos a "campeã" que falou sobre a preservação da natureza (ironia fina, não?), enquanto o maior rio da cidade permanece uma vala a céu aberto.

O desfile de hoje é o epílogo de uma fantasia. Amanhã, as alegorias serão desmontadas e o ferro-velho aguarda. E a cidade? A cidade acorda com a ressaca de quem gastou o que não tinha para parecer rica por uma noite. A festa é linda, a técnica é perfeita, mas o chão que pisamos está rachado.

MS
Maria Souza

Jornalista especializado em Sociedade. Apaixonado por analisar as tendências atuais.