Bruninho: A defesa mais difícil não acontece nas quatro linhas
Ele herdou o talento de quem lhe tirou tudo. Agora, no Botafogo, Bruninho Samudio tenta o impossível: reescrever um sobrenome manchado de sangue com as próprias luvas.

Imagine ter 14 anos e, toda vez que você calça suas luvas de trabalho, o mundo prende a respiração. Não pela expectativa de uma grande defesa, mas pelo peso fantasmagórico de um DNA. Bruninho Samudio não escolheu sua história de origem (uma tragédia shakespeariana transmitida ao vivo em rede nacional), mas escolheu onde quer terminá-la: debaixo das traves.
Há uma ironia cruel e, ao mesmo tempo, uma coragem avassaladora na decisão de Bruninho de se tornar goleiro. É a mesma posição que consagrou seu pai biológico, Bruno Fernandes, e a mesma posição que serviu de palco para o homem condenado pelo assassinato de sua mãe, Eliza Samudio. Freud explicaria? Talvez. Mas no campo, a psicanálise dá lugar ao reflexo.
"A minha avó sempre me disse para eu ser eu mesmo. O passado não muda, mas o futuro a gente agarra." – Bruninho, em raras declarações sobre sua trajetória.
Recentemente dispensado pelo Athletico-PR (uma decisão técnica ou gestão de crise silenciosa?), ele encontrou no Botafogo um novo lar. O clube carioca, conhecido por sua estrela solitária, acolheu o garoto que conhece a solidão de uma forma que nenhum outro atleta da base jamais conhecerá. Mas aqui reside o perigo da narrativa fácil: Bruninho é bom? Ou estamos todos assistindo a um reality show mórbido esperando ver se a genética do talento supera a maldição do crime?
Sônia Moura, a avó materna que o criou, é a verdadeira muralha dessa história. Enquanto a mídia tenta buscar semelhanças físicas ou técnicas com o pai, ela construiu um indivíduo. Bruninho é alto, elástico e tem uma envergadura promissora. Especialistas da base garantem: o garoto tem fundamento. Ele não está lá por caridade, e isso incomoda muita gente que preferiria vê-lo como uma eterna vítima estatística.
👀 Por que a posição de goleiro?
O que muda de verdade com sua chegada ao Rio de Janeiro? A pressão aumenta. O Botafogo oferece uma vitrine global e uma torcida passional. Cada falha será dissecada não como erro técnico, mas como falha de caráter? É o risco. Mas se ele vingar, se ele se tornar profissional, Bruninho terá realizado a maior reviravolta do futebol brasileiro. Não ganhando uma Copa, mas provando que o sangue que corre nas veias não define o caráter de um homem.
Ele está tentando escrever o próprio nome em uma camisa que já vem pesada de fábrica. E nós? Nós somos apenas espectadores de uma jornada onde a bola é o menor dos detalhes.


