Cultura

Do Olimpo ao Horário Nobre: A Maldição e a Glória das Três Graças

A sala de estar escurece, o tema de abertura toca. Por que o arquétipo das três mulheres unidas pelo destino ainda governa nossa ficção e o que isso diz sobre a liberdade feminina que acreditamos ter conquistado?

JL
Juliana Lima
13 de fevereiro de 2026 às 20:013 min de leitura
Do Olimpo ao Horário Nobre: A Maldição e a Glória das Três Graças

Imagine a cena: domingo à noite, ou talvez terça-feira depois do jornal. Em um sofá no interior de Minas ou em um apartamento estúdio em São Paulo, três gerações de mulheres assistem à mesma tela. O que prende a atenção da avó conservadora e da neta feminista radical ao mesmo tempo? Quase sempre, é a trindade.

Não a Santíssima, mas a dramática. O conceito das "Três Graças" — herdado da mitologia grega (Aglaia, Eufrosina e Tália) — não é apenas uma referência erudita para preencher currículo de roteirista. É a estrutura óssea da telenovela brasileira. Seja em Cheias de Charme, Elas por Elas ou nas protagonistas sofredoras de Manoel Carlos, a fórmula de dividir a psique feminina em três avatares distintos continua sendo a aposta mais segura da indústria.

"A ficção não espelha a realidade; ela oferece o rascunho que a sociedade tem medo de passar a limpo."

Mas aqui mora o perigo (e a genialidade cínica) da coisa. Ao apresentar três perfis — geralmente a Rebelde, a Maternal e a Ingênua/Ambiciosa — a TV cria uma ilusão de pluralidade. Você olha e pensa: "Finalmente, representatividade! A mulher moderna está lá". Será mesmo?

O algoritmo do drama

Se despirmos o roteiro de seus diálogos virais e figurinos da moda, o que resta é uma negociação tensa entre o que a mulher moderna é e o que a tradição permite que ela seja. A personagem "livre" geralmente paga um preço alto (solidão ou tragédia) antes da redenção final, que quase sempre envolve... um casamento.

Abaixo, o contraste entre o que víamos nos anos 80 e o que consumimos hoje revela uma mudança cosmética, mas estruturalmente tímida:

ArquétipoVersão Clássica (1980-1990)Versão "Moderna" (2020s)
A RebeldeA "ovelha negra", mal vista, precisa ser domada pelo amor.Empresária de sucesso, mas "infeliz no amor" até ceder.
A MaternalSanta, sofredora, perdoa traições em silêncio."Guerreira", sustenta a casa, mas ainda carrega o fardo emocional sozinha.
A IngênuaVítima das circunstâncias, precisa de resgate masculino.Digital Influencer ou aspirante, iludida pelo brilho fácil, aprende "na marra".

Percebe o padrão? A embalagem mudou. Agora a rebelde usa blazer e tem um startup. A maternal não chora no tanque, chora no Uber. Mas o destino final dessas três mulheres raramente rompe com a expectativa de que a felicidade feminina é um esporte coletivo, necessariamente atrelado à validação externa (seja de um parceiro ou da família).

A armadilha da sororidade comercial

O que poucos discutem é a função mercadológica dessa trindade. Não se trata apenas de arte, mas de fatiar o bolo publicitário. Cada uma das "Graças" vende um tipo de produto. A rebelde vende o carro e o perfume caro; a maternal vende o sabão e o plano de saúde; a jovem vende a moda rápida e a tecnologia.

Quando celebramos a "força" dessas personagens, muitas vezes estamos apenas aplaudindo nossa própria segmentação como consumidoras. A verdadeira revolução na tela não virá quando tivermos três tipos de mulheres, mas quando uma única personagem puder ser contraditória, ambiciosa, maternal e caótica sem que o roteiro a puna por essa complexidade. Até lá, continuaremos assistindo ao mesmo mito grego, apenas com melhor iluminação e trilha sonora de pop atual.

JL
Juliana Lima

Jornalista especializado em Cultura. Apaixonado por analisar as tendências atuais.