Cultura

Hobbs & Shaw: O adeus à realidade e a crise de identidade dos blockbusters

Esqueça as corridas de rua e a honra entre ladrões. O spin-off de 2019 não foi apenas um filme de ação, foi o sintoma ruidoso de uma Hollywood viciada em esteroides e aterrorizada pelo risco.

JL
Juliana Lima
18 de janeiro de 2026 às 17:012 min de leitura
Hobbs & Shaw: O adeus à realidade e a crise de identidade dos blockbusters

Você realmente comprou a ideia de que tudo isso é sobre "família"? (Poupe-me). Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw não é apenas um filme; é um estudo de caso sobre o desespero corporativo. Quando a Universal Pictures decidiu colocar Dwayne Johnson e Jason Statham em uma rota de colisão isolada, eles não estavam expandindo um universo narrativo. Estavam admitindo, implicitamente, que a fórmula original havia colapsado sob o próprio peso.

O que temos aqui é a "Marvelização" da ação crua. Lembra quando o perigo era capotar um Honda Civic a 180 km/h? Pois é, esses dias morreram. Em Hobbs & Shaw, temos Idris Elba autoproclamando-se o "Superman Negro", um ciborgue geneticamente modificado. A franquia, que nasceu no asfalto sujo de Los Angeles, decidiu que agora compete com super-heróis.

"O filme abandona qualquer pretensão de física newtoniana para abraçar o absurdo como modelo de negócios. Se não explode, não vende."

Essa escalada não é acidental; é um reflexo do medo dos estúdios. O público moderno, com a capacidade de atenção fragmentada pelo TikTok, supostamente não aceita mais um drama policial simples. Tudo precisa ser o fim do mundo. Um vírus letal? Claro. Carros puxando helicópteros com correntes? Por que não?

CritérioRaízes da FranquiaHobbs & Shaw (2019)
Ameaça PrincipalRoubo de DVD players / Gangues rivaisVírus global programável / Super-soldados
Leis da FísicaRespeitadas (na maioria das vezes)Opcionais (ou inexistentes)
FocoCarros e SubculturaQuímica de Atores e Ego

Mas o verdadeiro fenômeno cultural aqui não está na tela, mas nos bastidores (o lugar onde a mágica real acontece). A rivalidade pública entre The Rock e Vin Diesel foi capitalizada. O estúdio transformou uma briga de egos em uma linha de receita separada. Isso levanta a questão: até quando o carisma de duas estrelas consegue sustentar um roteiro que parece ter sido escrito por um algoritmo preditivo?

O futuro dos blockbusters, se seguirmos a lógica deste filme, é sombrio para quem gosta de coerência. Estamos caminhando para o "Event Movie" perpétuo, onde a história é apenas um pretexto frágil para conectar duas set pieces de ação que custaram 50 milhões de dólares cada. Hobbs & Shaw provou que você pode remover o coração da franquia (a equipe original) e transplantar um órgão artificial feito de piadas rápidas e CGI. O paciente sobreviveu? Financeiramente, sim. Artisticamente? Está em coma.

JL
Juliana Lima

Jornalista especializado em Cultura. Apaixonado por analisar as tendências atuais.