Esporte

Ibrachina: O 'soft power' de chuteiras que está humilhando a tradição na Mooca

Esqueça a mística da camisa pesada. Um clube fundado na pandemia está jantando os gigantes de São Paulo, e não é por acaso: é geopolítica aplicada à grande área.

TS
Thiago Silva
17 de janeiro de 2026 às 18:053 min de leitura
Ibrachina: O 'soft power' de chuteiras que está humilhando a tradição na Mooca

Se você ainda acredita que o futebol de base se resume a olheiros com pranchetas gastas e peneiras em campos de terra batida, tenho más notícias: você parou no tempo. Enquanto torcedores do Corinthians e do Santos debatem a "mística" de seus mantos sagrados (e suas dívidas impagáveis), um intruso de apenas cinco anos de idade está reescrevendo as regras do jogo no coração da Mooca. O nome dele é Ibrachina FC.

Fundado em setembro de 2020 — sim, no auge da pandemia, quando a maioria dos clubes lutava para não falir —, o projeto não é apenas um time de futebol. É uma aula de eficiência corporativa que expõe a amadora gestão dos nossos gigantes centenários. Você acha normal um "bebê" do futebol ter uma Arena certificada pela FIFA enquanto times da Série A sofrem com gramados esburacados?

Não é milagre, é investimento (e geopolítica)

Por trás do escudo com o dragão, não há uma comunidade de torcedores apaixonados que vendeu rifa para comprar uniformes. Há o Instituto Ibrachina e a família Law. Henrique Law, o presidente, não está brincando de Manager Mode do FIFA. O clube nasceu com um propósito claro: ser uma ponte entre Brasil e China. Mas, na prática, virou uma fábrica de ativos de alta performance.

O cético em mim precisa perguntar: como um clube sem time profissional (ainda) consegue atrair talentos que, historicamente, iriam para o Parque São Jorge ou para a Barra Funda? A resposta é dolorosa para os românticos: estrutura vence tradição.

"O Ibrachina não quer ganhar a Libertadores. Eles querem ganhar o mercado. O troféu deles é o balanço financeiro positivo na venda de um garoto de 16 anos para a Europa."

Os resultados em campo — como as campanhas sólidas na Copinha, avançando de fase e batendo de frente com a elite — são apenas o vitrine da loja. O verdadeiro produto é o jogador.

CritérioGigante TradicionalIbrachina FC
FocoTítulos e Política InternaFormação e Venda (Business)
InfraestruturaMuitas vezes obsoletaArena FIFA e Tecnologia de Dados
Tomada de DecisãoLenta (Conselhos Deliberativos)Ágil (Dono/Presidente)

O incômodo necessário

O que mais assusta não é a ascensão do Ibrachina, mas a letargia dos outros. O clube da Mooca opera com uma lógica de startup num ecossistema de estatais falidas. Eles captam o "refugo" dos grandes ou chegam antes nos talentos periféricos, oferecem um plano de carreira, nutrição de ponta e vitrine.

É um modelo sustentável a longo prazo? Ou é uma bolha financiada por capital externo que pode estourar se a torneira fechar? (Uma pergunta válida, considerando a volatilidade dos investimentos no futebol). Por enquanto, a "ascensão inesperada" é um tapa na cara da cartolagem brasileira. O Ibrachina provou que camisa pesada não entra em campo; o que entra é gestão, dinheiro e planejamento.

Se os gigantes não abrirem o olho, em breve estarão comprando de volta os talentos que perderam para um time fundado ontem na rua de trás.

TS
Thiago Silva

Jornalista especializado em Esporte. Apaixonado por analisar as tendências atuais.