Cultura

"Mandioca Frita" no Horário Nobre: A Vingança do Bizarro Nacional Contra Hollywood

Quando o blockbuster de segunda-feira é substituído por um motorista de ônibus de Brasília, o Brasil não muda de canal. Ele se reconhece no espelho torto da TV aberta.

JL
Juliana Lima
10 de fevereiro de 2026 às 11:013 min de leitura
"Mandioca Frita" no Horário Nobre: A Vingança do Bizarro Nacional Contra Hollywood

Imagine a cena. É segunda-feira à noite, o relógio marca 22h15. No seu colo, talvez um prato equilibrando o jantar tardio; na tela, a promessa pavloviana de sempre: explosões, super-heróis em lycra ou perseguições de carros em alta velocidade dublados com aquele sotaque neutro que não existe em lugar nenhum do mapa.

Mas ontem, a Tela Quente — esse templo sagrado do enlatado norte-americano — serviu algo diferente. Não houve Tom Cruise saltando de penhascos. Não houve Marvel. Houve "Mandioca Frita". Um filme sobre um motorista de ônibus e palhaço de Brasília. E o mais fascinante? Você não desligou. O Brasil não desligou. Por quê?

O bizarro da TV aberta não é um defeito de fabricação; é a nossa impressão digital cultural gritando mais alto que o algoritmo.

O fenômeno "Mandioca Frita" (o filme, não o petisco, embora o consumo simultâneo seja recomendado) ilustra uma virada tectônica no nosso consumo de mídia. Estamos exaustos da perfeição plástica. Aquele CGI milionário de Hollywood? Ficou com gosto de isopor. O público, anestesiado por décadas de narrativas pasteurizadas, agora anseia pela textura áspera, e por vezes caótica, da realidade tupiniquim.

A Estética do "Brasil Profundo"

Quando a TV Globo coloca uma produção regional do Distrito Federal no horário nobre, ela admite uma derrota estratégica que é, na verdade, uma vitória de sobrevivência: o de que o blockbuster agora é o vizinho. Dirley, o protagonista vivido por Rômulo Braga, não salva o mundo de alienígenas. Ele tenta salvar o próprio dia a dia. É o herói do boleto pago.

Essa "estranheza" — ver um ônibus da Ceilândia onde deveria estar uma nave espacial — gera um curto-circuito cognitivo delicioso. É o que eu chamo de Efeito Espelho Quebrado: a gente se vê na tela, mas de um jeito fragmentado, engraçado e levemente constrangedor. E adoramos isso.

CritérioHollywood PadrãoEstética "Mandioca Frita"
OrçamentoUS$ 200 MilhõesUm edital e muita fé
SuperpoderRaio Laser / VooJogo de Cintura / Sarcasmo
CenárioNova York destruídaPonto de ônibus lotado
SentimentoAdrenalinaIdentificação Imediata

Mas não se engane achando que isso é apenas "trash" cult. Existe uma sofisticação na simplicidade. O bizarro captura a imaginação nacional porque ele rompe a quarta parede da pretensão. Numa era onde todo mundo no Instagram tenta parecer um editorial da Vogue, a TV aberta, com seus programas de auditório caóticos e filmes regionais inesperados, tornou-se o último refúgio da autenticidade sem filtro.

👀 Mas afinal, o "Mandioca Frita" existe de verdade?
Sim! A trama não saiu da cabeça de um roteirista alucinado. O filme é inspirado em uma figura real de Brasília: um motorista de ônibus que também atuava como palhaço e animador cultural. O apelido "Mandioca Frita" vem de sua performance popular. A ficção apenas emprestou o megafone para uma história que já acontecia nas esquinas do Planalto Central.

O que este filme muda de verdade? Ele valida o sotaque. Ele diz para a dona de casa em Manaus ou para o estudante em Porto Alegre que a história deles vale uma segunda-feira à noite. O "bizarro" deixou de ser o que nos envergonha para ser o que nos une. Se Hollywood quiser competir com isso, vai ter que aprender a descascar muita mandioca.

JL
Juliana Lima

Jornalista especializado em Cultura. Apaixonado por analisar as tendências atuais.