Política

O cofre secreto: A ilusão dos bilhões na vitrine fiscal de Caiado

A narrativa do equilíbrio fiscal goiano esconde buracos milionários e manobras contábeis. Por trás da vitrine para 2026, quem realmente paga a conta do milagre?

RS
Roberto Silva
30 de março de 2026 às 13:023 min de leitura
O cofre secreto: A ilusão dos bilhões na vitrine fiscal de Caiado

Há uma regra não escrita na política brasileira: todo candidato à Presidência precisa de um milagre econômico para chamar de seu. Ronaldo Caiado sabe bem disso. O governador de Goiás pavimenta sua estrada para 2026 exibindo uma vitrine fiscal aparentemente impecável. Mas o que acontece quando decidimos apagar os holofotes e abrir o cofre secreto do Palácio das Esmeraldas?

A resposta exige estômago. A narrativa oficial jura que o estado foi resgatado da falência (uma herança maldita de R$ 6,4 bilhões assumida em 2019). No entanto, a mágica contábil tem suas próprias impressões digitais. Alguém já se perguntou como uma dívida estadual salta para R$ 28 bilhões no fim de 2025, mesmo com a União quitando passivos massivos?

O paradoxo da Taxa do Agro

Olhemos para o Fundeinfra, a polêmica "taxa do agro" criada sob protestos ferozes. Em fevereiro de 2026, Caiado anunciou subitamente o fim da cobrança. O motivo oficial? Aliviar o produtor rural diante dos custos elevados. A realidade paralela? O fundo já havia sugado até R$ 3 bilhões da economia goiana. (Dinheiro farto em caixa no ano eleitoral costuma ser um excelente analgésico político).

O problema é que as estradas, promessa original do fundo, continuam na imaginação coletiva. Temos rodovias paralisadas, denúncias de problemas estruturais, reconstruções determinadas pelo Tribunal de Contas (como na GO-210) e operações policiais batendo na porta da Goinfra. Arrecada-se na velocidade da luz, mas a entrega caminha a passos de tartaruga.

"O déficit de quase R$ 5 bilhões registrado em 2025 não é um erro de percurso; é o preço exato de uma vitrine construída às pressas para o cenário nacional."

De superávit a um buraco planejado

A Secretaria da Economia chama de "uso estratégico da poupança". Nós chamamos pelo nome correto: um mergulho voluntário no vermelho. Goiás transformou anos de arrocho e superávit em um déficit estrondoso de quase R$ 5 bilhões (R$ 4,96 bilhões na meta revisada) às vésperas do ciclo eleitoral de 2026. Para onde foi esse dinheiro?

A lista de despesas revela as verdadeiras prioridades da gestão. Tivemos extravagâncias indisfarçáveis, como os chocantes R$ 245 milhões injetados na adequação do Autódromo de Goiânia para a MotoGP. O detalhe irônico? Uma cratera na pista durante o evento virou notícia internacional, arruinando a festa e expondo a fragilidade estrutural das obras estaduais vendidas como perfeitas.

Indicador Financeiro O Discurso Oficial A Realidade dos Números
Balanço em 2025 Poupança estratégica devolvida ao povo. Déficit primário recorde de R$ 4,96 bilhões.
Fundeinfra (2022-2026) Infraestrutura vital para escoar safras. Bilhões em caixa e obras essenciais inacabadas.
Gestão de Obras Eficiência e modernização do estado. R$ 245 mi no Autódromo com falhas estruturais vergonhosas.

Quem realmente paga essa conta?

Ao desmontarmos a engrenagem, percebemos que a pretensa eficiência cobrou um preço insustentável no longo prazo. O estado assistiu a privatizações polemizadas da Celg e do Ipasgo, enquanto flerta perigosamente com o fatiamento da Saneago. Trata-se de uma liquidação silenciosa. O servidor público absorve o impacto com impasses em sua data-base, enquanto a máquina de propaganda se ocupa em trocar placas de inauguração em obras herdadas (uma prática tão recorrente que gerou o incômodo apelido de "Troca Placa" nos corredores políticos).

A fatura dessa gestão voltada para os holofotes de 2026 já tem destinatário certo. Quando a poeira das urnas baixar, a população goiana terá que lidar com o esvaziamento de seus ativos públicos e uma dívida reformulada que voltará a sufocar as contas. Afinal, a austeridade costuma ser rigorosa com os serviços básicos, mas incrivelmente flexível quando a ambição presidencial deforma o orçamento.

RS
Roberto Silva

Jornalista especializado em Política. Apaixonado por analisar as tendências atuais.