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Sisu: O cassino emocional onde sua nota define o CEP do seu futuro

Esqueça a meritocracia de planilha. Entre notas de corte que dançam e madrugadas de ansiedade, o sistema unificado virou um jogo de pôquer onde a estratégia vale tanto quanto o estudo.

MS
Maria Souza
16 de janeiro de 2026 às 03:313 min de leitura
Sisu: O cassino emocional onde sua nota define o CEP do seu futuro

São 23h59 e Lucas, um garoto de 19 anos no interior de Minas Gerais, está suando frio. O quarto está escuro, iluminado apenas pelo brilho azulado do monitor. Ele não está jogando um battle royale, embora a adrenalina seja a mesma. Ele está olhando para a tela do Sisu. Com um clique, ele pode ser um futuro engenheiro em Porto Alegre ou um dentista em Salvador. O sistema do Ministério da Educação não é apenas uma plataforma de seleção; é um moedor de carne emocional disfarçado de burocracia digital.

A narrativa oficial nos vende o Sisu como a democratização do acesso (e, em muitos níveis, é). Mas quem já passou pelas quatro ou cinco noites de "parciais" sabe que aquilo é, na verdade, um mercado de ações de futuros humanos. A moeda? Sua nota do Enem. A volatilidade? Absoluta.

"O Sisu não testa apenas o seu conhecimento acumulado no ensino médio; ele testa a sua frieza estomacal para apostar o próprio destino contra um algoritmo."

O drama começa na famosa "nota de corte fantasma". Você dorme aprovado em 15º lugar de 20 vagas. Acorda, após a atualização da meia-noite, em 25º. O que aconteceu? A migração de manada. Milhares de estudantes, percebendo que não passariam em Medicina na capital, invadiram o curso de Biomedicina ou Enfermagem no interior, inflando as notas artificialmente. É um movimento tectônico invisível.

👀 Por que as notas de corte flutuam tanto?
A culpa é da "Dupla Classificação". Durante anos, o sistema permitia que o aluno ocupasse temporariamente vagas nas duas opções escolhidas, criando uma percepção falsa de segurança (e notas de corte infladas). Mudanças recentes tentaram mitigar isso, fazendo com que a nota só conte na primeira opção se o aluno passar nela, mas o efeito psicológico da incerteza permanece brutal.

Mas o que poucos discutem é a barreira invisível que o Sisu ergueu: a gentrificação das vagas federais. Sim, você pode aplicar para qualquer lugar do Brasil. Lindo na teoria. Na prática? Isso favorece quem tem suporte financeiro para atravessar o país. O estudante periférico que tirou uma nota excelente muitas vezes vê sua vaga na universidade local ser tomada por alguém de outro estado com condições de se mudar, enquanto ele não tem recursos para fazer o movimento inverso.

O sistema transformou o ingresso na universidade em um jogo de estratégia logística. Não basta estudar História e Geografia; é preciso entender de teoria dos jogos. Vale a pena arriscar a lista de espera daquela federal de prestígio ou garantir a matrícula numa universidade menor no sertão? Essa dúvida paralisa. E o cronômetro não para.

No fim das contas, o Sisu nos ensina uma lição dura sobre a vida adulta antes mesmo do primeiro dia de aula: nem sempre vence o melhor, mas sim quem sabe ler o cenário, adaptar a rota e, principalmente, quem tem estômago para segurar a posição enquanto o mundo (ou a nota de corte) desaba ao redor.

MS
Maria Souza

Jornalista especializado em Sociedade. Apaixonado por analisar as tendências atuais.