Sociedad

Frei Gilson: Quando a Fé Vira Algoritmo às 4 da Manhã

Esqueça o horário nobre. O maior fenômeno de audiência do Brasil acontece enquanto você dorme, transformando o Rosário em live de milhões.

MG
María GarcíaPeriodista
25 de febrero de 2026, 08:023 min de lectura
Frei Gilson: Quando a Fé Vira Algoritmo às 4 da Manhã

Imagine a cena. São 3h55 da manhã. O silêncio é absoluto na maioria das cidades brasileiras. Mas, em centenas de milhares de quartos escuros, o brilho azul de telas de smartphones ilumina rostos sonolentos. Não é insônia coletiva, nem a ansiedade pelo mercado financeiro asiático. É um encontro marcado. O anfitrião? Um carmelita que fala a língua do TikTok com a profundidade dos padres do deserto.

A ascensão de Frei Gilson não é apenas um "case" de sucesso religioso; é um estudo antropológico sobre a carência de conexão na era da hiperconectividade.

“Na madrugada, a concorrência é menor. O mundo dorme, o algoritmo descansa, e o fiel encontra uma exclusividade que a missa de domingo, lotada e dispersa, raramente oferece.”

Para entender o fenômeno, precisamos desmontar o clichê do "padre influencer". Gilson não está ali fazendo dancinhas constrangedoras para agradar a Geração Z (embora seus cortes viralizem nessa demografia). Ele resgatou uma prática ascética medieval — a vigília — e a embalou em formato de live streaming. O "Rosário da Madrugada" funciona porque exige um sacrifício físico. Acordar às 4h00 dói. E é nessa dor compartilhada, nesse "perrengue santo", que se cria uma comunidade muito mais sólida do que qualquer grupo de WhatsApp.

A Igreja Católica, historicamente lenta para adotar novas tecnologias (o Vaticano ainda opera em séculos, não em segundos), encontrou em figuras como Frei Gilson e o movimento Som do Monte a resposta para a máquina de mídia evangélica, que dominou o cenário digital brasileiro nos últimos 20 anos.

Mas o que isso muda na prática? A geografia da fé foi implodida. O território paroquial, antes delimitado por ruas e bairros, agora é definido pela largura de banda e pela notificação do YouTube. O fiel de Gilson não precisa necessariamente frequentar a paróquia do seu bairro; ele tem seu diretor espiritual no bolso.

👀 Por que as 4 da manhã?

A escolha não é aleatória. Biblicamente, a madrugada (vigília) é o tempo da batalha espiritual e da intimidade. Psicologicamente, cria um senso de pertencimento de elite: "nós somos os que se sacrificam enquanto os outros dormem". Além disso, tecnicamente, o engajamento nessas horas vale ouro para as plataformas, pois retém o usuário em um horário morto.

O perigo? A criação de uma espiritualidade on-demand, onde o carisma do líder digital suplanta a instituição. Se a internet democratizou o púlpito, ela também criou o risco da idolatria algorítmica. Frei Gilson navega nessa linha tênue com habilidade, redirecionando o foco para o sagrado, mas é inegável que, na economia da atenção, sua batina vale milhões de visualizações.

No fim das contas, ver um estádio ou uma live lotada às 4h da manhã nos diz menos sobre religião e mais sobre a solidão moderna. As pessoas estão desesperadas por um sentido, e se ele vier acompanhado de uma notificação push antes do sol nascer, que seja.

MG
María GarcíaPeriodista

Periodista especializado en Sociedad. Apasionado por el análisis de las tendencias actuales.