Prouni: O Grande Balcão de Negócios disfarçado de Sonho Universitário
Enquanto celebramos números recordes de bolsas, ignoramos a bomba-relógio: bilhões em isenção fiscal para alimentar conglomerados educacionais, diplomas de valor duvidoso e uma geração endividada sem emprego.

Os números são lindos, não são? O governo solta o release, a imprensa replica os gráficos ascendentes e todos dormem tranquilos achando que o Brasil está virando uma pátria educadora. Mas se você parar de olhar para o PowerPoint do Ministério da Educação (MEC) e olhar para o balanço das gigantes de educação listadas na Bolsa, a história muda de figura. O Prouni, vendido como a carta de alforria social para milhões de jovens da periferia, tornou-se, na prática, um respiradouro financeiro para instituições privadas que, sem o dinheiro público (indireto), teriam salas de aula vazias.
Não se engane: a democratização aqui tem um asterisco gigante.
A premissa é nobre, a execução é mercantil. Trocamos impostos que essas faculdades deveriam pagar por vagas ociosas. Parece justo? Talvez, se a qualidade do ensino fosse a contrapartida exigida. Mas não é. O que vemos é uma injeção massiva de capital público (via renúncia fiscal) financiando a expansão de grupos educacionais que priorizam escala em detrimento do saber. (Spoiler: o mercado sabe disso e precifica o diploma de acordo).
"O Prouni não é apenas um programa de educação; é o maior programa de transferência de renda para o setor privado de ensino superior da história do Brasil."
A dura realidade é que criamos uma fábrica de diplomas. O aluno entra sonhando com a mobilidade social e sai com um papel que, muitas vezes, vale menos do que a mensalidade que o governo subsidiou. E o índice de evasão? Um tabu. Ninguém gosta de falar sobre quantos bolsistas abandonam o curso porque a bolsa cobre a mensalidade, mas não paga o ônibus, o livro ou o almoço. A "inclusão" para na porta da catraca.
Expectativa vs. Realidade do Mercado
Para entender o abismo, basta comparar o que é vendido na propaganda governamental com o que o setor de RH das grandes empresas vivencia:
| A Promessa do Prouni | A Realidade Crua |
|---|---|
| Acesso ao Ensino Superior para todos. | Massificação do EAD de baixa qualidade (custo baixo, lucro alto). |
| Empregabilidade garantida. | Subemprego ou funções que não exigem curso superior ("Uberização"). |
| Diversidade no campus. | Segregação velada: bolsistas em cursos menos prestigiados ou horários alternativos. |
E agora, com a flexibilização que permite até quem estudou em escola particular (sem bolsa) concorrer, a distorção se completa. O filtro original, que era garantir que o recurso chegasse ao mais pobre, está diluído. Estamos financiando a classe média baixa em detrimento dos miseráveis? Ou apenas garantindo que as faculdades preencham as vagas a qualquer custo para não perder a isenção fiscal?
O elefante na sala é o Ensino a Distância (EAD). A maior parte das novas bolsas vai para essa modalidade. É barato para quem oferece, é conveniente para quem consome, mas é pedagogicamente questionável em escalas industriais sem tutoria adequada. Estamos formando profissionais ou apenas consumidores de conteúdo digital?
Quem ganha com isso? Os acionistas da Cogna, da Yduqs, da Ser Educacional. O jovem brasileiro, que deveria ser o protagonista, é apenas o combustível que mantém essa máquina girando. Enquanto não discutirmos a qualidade e a retenção, o Prouni continuará sendo uma estatística bonita para político colocar em santinho eleitoral, e uma frustração silenciosa para quem descobre, tarde demais, que o acesso sem permanência e sem qualidade é apenas uma ilusão cruel.


