Sociedade

Prouni: O Grande Balcão de Negócios disfarçado de Sonho Universitário

Enquanto celebramos números recordes de bolsas, ignoramos a bomba-relógio: bilhões em isenção fiscal para alimentar conglomerados educacionais, diplomas de valor duvidoso e uma geração endividada sem emprego.

MS
Maria Souza
3 de fevereiro de 2026 às 05:013 min de leitura
Prouni: O Grande Balcão de Negócios disfarçado de Sonho Universitário

Os números são lindos, não são? O governo solta o release, a imprensa replica os gráficos ascendentes e todos dormem tranquilos achando que o Brasil está virando uma pátria educadora. Mas se você parar de olhar para o PowerPoint do Ministério da Educação (MEC) e olhar para o balanço das gigantes de educação listadas na Bolsa, a história muda de figura. O Prouni, vendido como a carta de alforria social para milhões de jovens da periferia, tornou-se, na prática, um respiradouro financeiro para instituições privadas que, sem o dinheiro público (indireto), teriam salas de aula vazias.

Não se engane: a democratização aqui tem um asterisco gigante.

A premissa é nobre, a execução é mercantil. Trocamos impostos que essas faculdades deveriam pagar por vagas ociosas. Parece justo? Talvez, se a qualidade do ensino fosse a contrapartida exigida. Mas não é. O que vemos é uma injeção massiva de capital público (via renúncia fiscal) financiando a expansão de grupos educacionais que priorizam escala em detrimento do saber. (Spoiler: o mercado sabe disso e precifica o diploma de acordo).

"O Prouni não é apenas um programa de educação; é o maior programa de transferência de renda para o setor privado de ensino superior da história do Brasil."

A dura realidade é que criamos uma fábrica de diplomas. O aluno entra sonhando com a mobilidade social e sai com um papel que, muitas vezes, vale menos do que a mensalidade que o governo subsidiou. E o índice de evasão? Um tabu. Ninguém gosta de falar sobre quantos bolsistas abandonam o curso porque a bolsa cobre a mensalidade, mas não paga o ônibus, o livro ou o almoço. A "inclusão" para na porta da catraca.

Expectativa vs. Realidade do Mercado

Para entender o abismo, basta comparar o que é vendido na propaganda governamental com o que o setor de RH das grandes empresas vivencia:

A Promessa do ProuniA Realidade Crua
Acesso ao Ensino Superior para todos.Massificação do EAD de baixa qualidade (custo baixo, lucro alto).
Empregabilidade garantida.Subemprego ou funções que não exigem curso superior ("Uberização").
Diversidade no campus.Segregação velada: bolsistas em cursos menos prestigiados ou horários alternativos.

E agora, com a flexibilização que permite até quem estudou em escola particular (sem bolsa) concorrer, a distorção se completa. O filtro original, que era garantir que o recurso chegasse ao mais pobre, está diluído. Estamos financiando a classe média baixa em detrimento dos miseráveis? Ou apenas garantindo que as faculdades preencham as vagas a qualquer custo para não perder a isenção fiscal?

O elefante na sala é o Ensino a Distância (EAD). A maior parte das novas bolsas vai para essa modalidade. É barato para quem oferece, é conveniente para quem consome, mas é pedagogicamente questionável em escalas industriais sem tutoria adequada. Estamos formando profissionais ou apenas consumidores de conteúdo digital?

Quem ganha com isso? Os acionistas da Cogna, da Yduqs, da Ser Educacional. O jovem brasileiro, que deveria ser o protagonista, é apenas o combustível que mantém essa máquina girando. Enquanto não discutirmos a qualidade e a retenção, o Prouni continuará sendo uma estatística bonita para político colocar em santinho eleitoral, e uma frustração silenciosa para quem descobre, tarde demais, que o acesso sem permanência e sem qualidade é apenas uma ilusão cruel.

MS
Maria Souza

Jornalista especializado em Sociedade. Apaixonado por analisar as tendências atuais.