A Fabricação do Santo: O colapso inevitável do 'Cowboy Anjo' do BBB
A audiência compra a pureza rural, mas o algoritmo cobra juros altos. Por que insistimos em criar heróis imaculados em reality shows apenas para assistir à sua desconstrução pública?

Há algo de podre no reino da nossa carência afetiva nacional. A cada janeiro, o ritual se repete: selecionamos um elenco de narcisistas digitais e, no meio deles, buscamos desesperadamente o "escolhido". O arquétipo da vez? O cowboy anjo. Aquele rapaz (quase sempre um homem) que parece ter saído de uma novela das seis, com sotaque arrastado, valores familiares inabaláveis e uma incapacidade crônica de levantar a voz.
Mas vamos ser brutalmente honestos? Nós não amamos o cowboy. Nós amamos a ficção que projetamos nele.
"O público de reality show não busca a verdade; busca um espelho que reflita a moralidade que eles fingem ter. Quando o espelho racha, o ódio é proporcional à idolatria anterior."
O fenômeno recente em torno de figuras como Matteus Amaral (o Alegrete do BBB 24) ilustra perfeitamente essa esquizofrenia social. Durante três meses, ele foi o genro perfeito do Brasil. A bondade personificada. Mas o que acontece quando as câmeras de 24 horas são desligadas e a realidade bate à porta com boletos e passados mal resolvidos?
A Matemática da Decepção
O problema da fama instantânea baseada na bondade é que ela não permite erro. O vilão do programa pode se redimir (o tal arco de redenção gera engajamento). O "anjo", não. Ele só pode cair. A recente controvérsia envolvendo fraudes em cotas raciais — que atingiu em cheio a imagem do "bom moço" — não é apenas um deslize legal; é a ruptura do contrato sagrado com a audiência. (Você pode ser tudo, menos humano e falho).
| Fase do Fenômeno | Valor de Mercado | Reação do Público |
|---|---|---|
| O Confinamento | Altíssimo (Ouro) | Adoração cega, fã-clubes militarizados. |
| O Pós-Imediato | Estável (Prata) | Cobrança por posicionamentos políticos e sociais. |
| A Queda (Realidade) | Lixo Tóxico | Cancelamento ou, pior, a indiferença total. |
Não se enganem com os números de seguidores no Instagram. Eles são inflados por bots e por uma inércia digital de quem segue e esquece de deixar de seguir. O engajamento real do "cowboy anjo" despenca assim que ele deixa de ser uma tela em branco onde projetamos nossas virtudes.
O Eco Social da Hipocrisia
O que esse ciclo vicioso nos diz sobre o Brasil atual? Que estamos famintos por uma inocência que não existe mais. Buscamos no participante do interior, com seu chapéu e bota, uma reserva moral que a vida urbana e cínica nos roubou. É uma fetichização da simplicidade.
E quando descobrimos que o anjo sabe jogar, que ele (talvez) tenha usado atalhos questionáveis para entrar na universidade ou que sua bondade era, em parte, estratégia de sobrevivência no jogo? O castelo desmorona. Não porque ele seja um monstro, mas porque nós nos recusamos a aceitar a complexidade humana em nossos produtos de entretenimento. Queremos maniqueísmo. Queremos o bem contra o mal. E a vida real, meus caros, é irritantemente cinza.
O próximo "anjo" já está sendo preparado nos fornos da seleção de elenco. E nós, com nossa memória curta e fome de julgamento, já estamos afiando as pedras.
Le pouls de la rue, les tendances de demain. Je raconte la société telle qu'elle est, pas telle qu'on voudrait qu'elle soit. Enquête sur le réel.


