A liturgia do asfalto: 'Quem desfila hoje' não é apenas uma pergunta
Esqueça o paetê por um instante. No barracão, entre o cheiro de cola e o suor de fevereiro, desenha-se a única hierarquia que o Brasil realmente respeita. Uma viagem à ópera popular.

Tia Surica, matriarca da Portela, costumava dizer que o Carnaval não se ganha na avenida, mas na cozinha. E ela não falava apenas do feijão gordo. Falava da alquimia social que acontece quando o Brasil decide parar para se olhar no espelho.
Imagine a cena: um advogado renomado do Centro do Rio de Janeiro ajoelha-se para amarrar a sandália de uma senhora que, no dia a dia, talvez nem notasse na calçada. Naquela terça-feira gorda, ela é a Baiana. Ela é a autoridade máxima. Ele? Apenas um componente da ala 14. Essa inversão de valores, momentânea e brutalmente bela, é o coração pulsante da pergunta: "Quem desfila hoje?".
"A escola de samba é o único lugar do Brasil onde o pobre é rei, o rico é súdito e a história oficial pede licença para a história real passar."
Não estamos falando de um calendário turístico. Estamos falando de território. Quando alguém indaga sobre a ordem dos desfiles, está, na verdade, mapeando lealdades tribais (e não há nada mais humano que isso). Torcer para a Mangueira ou para o Salgueiro diz mais sobre sua visão de mundo do que seu voto na última eleição. É uma questão de CEP afetivo.
O enredo, essa ópera a céu aberto, funciona como um corretivo histórico. Livros didáticos falharam? A escola corrige. Zumbi dos Palmares, Maria Felipa, heróis apagados ganham vida em alegorias de dez metros de altura. O "quem desfila hoje" é, portanto, um sinônimo de "qual versão da nossa história vamos celebrar esta noite?". É a pedagogia do asfalto ensinando o que a academia esqueceu.
👀 O que o turista não vê (A engrenagem invisível)
Enquanto as câmeras focam na rainha de bateria, a verdadeira máquina opera no escuro:
- O Barracão: Uma fábrica que funciona 365 dias, empregando ferreiros, costureiras e escultores que sustentam famílias inteiras longe dos holofotes.
- A Harmonia: O "exército" de fiscais que garante que ninguém pare para tirar selfie. No asfalto, a disciplina é militar.
- A Comunidade: Aqueles que ensaiam na chuva meses antes. Eles não pagam pela fantasia; eles pagam com suor e canto. É a alma da nota 10.
Há quem reduza tudo a lavagem de dinheiro ou ópio do povo. Ceticismo válido, claro (o dinheiro tem que vir de algum lugar). Mas reduzir o desfile a isso é ignorar a potência de uma comunidade que se organiza, se veste de ouro e grita para o mundo que existe. O desfile é o grito de sobrevivência.
Então, da próxima vez que ouvir a pergunta fatal sobre a programação da noite, saiba que não é sobre horário. É sobre saber qual pedaço da alma brasileira vai sangrar e sorrir na avenida. Porque, no fim das contas, a quarta-feira de cinzas sempre chega, mas o que foi cantado na avenida ecoa eternamente nos becos.
Snob ? Peut-être. Passionné ? Sûrement. Je trie le bon grain de l'ivraie culturelle avec une subjectivité assumée. Cinéma, musique, arts : je tranche.

