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A síndrome do domingo: o que a busca pelo Fantástico ensina aos gigantes do Vale do Silício

A TV de 65 polegadas tem 15 aplicativos de streaming, mas às 19h45 de domingo, o brasileiro saca o celular para uma missão analógica: descobrir que horas começa o Fantástico.

MC
Myriam CohenJournaliste
16 mars 2026 à 05:052 min de lecture
A síndrome do domingo: o que a busca pelo Fantástico ensina aos gigantes do Vale do Silício

São 19h45 de um domingo qualquer. A pizza acaba de chegar na mesa da família Silva. A TV da sala, uma tela smart reluzente recheada com pelo menos meia dúzia de ícones de serviços de streaming, está temporariamente silenciada. O filho mais velho pega o celular e digita apressadamente no buscador: "horario fantastico hoje".

A cena se repete em milhões de lares simultaneamente. Contra todas as profecias catastrofistas dos gurus do Vale do Silício que decretaram o fim da televisão linear há quase uma década, o brasileiro continua refém (de forma voluntária, note bem) do relógio e da curadoria de domingo da emissora carioca.

"O streaming nos entregou o poder da escolha infinita, mas também nos condenou à exaustão crônica. A TV aberta oferece o luxo supremo de não precisarmos decidir nada."

Mas o que essa simples busca em massa semanal revela sobre nós? Para começar, escancara que a fogueira tribal em torno da TV ainda bate o algoritmo individual. Você pode maratonar uma obscura ficção científica coreana sozinho no sábado à noite. No domingo, porém, você precisa de munição para o café do escritório na segunda-feira de manhã. Você quer saber de quem a nação inteira estará falando.

👀 Por que pesquisar no Google em vez de apenas ligar a TV?

O telespectador de hoje carrega a ansiedade irascível do formato on-demand. Ele se recusa a assistir passivamente à programação "de transição" da tarde. Ele exige o início cirúrgico. Digitar a busca é a tentativa torta de aplicar a lógica de controle absoluto do streaming ao modelo engessado e imutável de transmissão clássica.

O que a maioria das análises de mídia ignora é quem realmente sente o peso dessa resiliência cultural. As próprias plataformas que prometeram enterrar a TV estão, silenciosamente, copiando a velha tática. Não é coincidência que Prime Video, Max e Disney+ tenham abandonado o modelo de temporadas lançadas de uma só vez, retornando aos episódios semanais e lutando ferozmente pelos direitos de esportes ao vivo. Eles invejam, com todas as forças, o senso de evento simultâneo que a vinheta do Fantástico desperta.

O Brasil, afinal, não abandonou a TV aberta e os seus rituais. Ele apenas aprendeu a manipulá-la e agendá-la a partir de uma barra de pesquisa.

MC
Myriam CohenJournaliste

Le pouls de la rue, les tendances de demain. Je raconte la société telle qu'elle est, pas telle qu'on voudrait qu'elle soit. Enquête sur le réel.