Culture

Adeus, Mitos: A Morte da Rockstar na Era da Dopamina Barata

Esqueça as TVs jogadas pela janela do hotel. O novo glamour é higienizado, medido em likes e, francamente, exaustivo. Eu vi a mudança de perto, e ela não é bonita.

ÉC
Élise ChardonJournaliste
19 janvier 2026 à 17:053 min de lecture
Adeus, Mitos: A Morte da Rockstar na Era da Dopamina Barata

Eu estava no backstage do Coachella há alguns anos, num canto escuro onde a luz dos estroboscópios não chegava, mas o zumbido do baixo sim. Antigamente, aquele espaço cheiraria a uísque barato, suor e péssimas decisões. Naquela noite? Cheirava a laquê e ansiedade. Vi uma artista — que vocês idolatram e cujos ingressos custam um salário mínimo — chorando não por causa da performance, mas porque a prévia do post no feed não estava "conversando" com a estética da era anterior.

Bem-vindos ao novo circo. Onde o domador é um algoritmo e o leão está dopado de filtros.

"O mistério era o oxigênio do mito. Hoje, nós asfixiamos nossos ídolos com atenção constante e exigimos que eles nos agradeçam por isso."

O conceito de "Rockstar" (aquela figura intocável, divina, perigosa) morreu. Não foi uma overdose clássica em uma banheira de hotel em Paris. Foi assassinado pela nossa necessidade patológica de "relatabilidade". Você já parou para pensar no paradoxo cruel que criamos? Queremos deuses que sejam, simultaneamente, inalcançáveis e nossos melhores amigos virtuais.

A Tirania da Acessibilidade

Eu converso com agentes e PRs toda semana. A conversa mudou. Ninguém mais fala sobre "mística". A palavra de ordem é "conversão". Se o seu ídolo não postar o café da manhã, o treino e o pedido de desculpas pelo erro que ele ainda nem cometeu, ele desaparece. (E acredite, o medo de desaparecer é maior do que o medo do fracasso artístico).

David Bowie não precisava mostrar o que comia. Prince não fazia live de pijama. A distância criava o desejo. Hoje, a proximidade cria o desprezo, ou pior, a banalidade. O glamour, que costumava ser uma armadura dourada, virou uma fantasia alugada para vídeos de 15 segundos.

👀 O segredo sujo que as gravadoras não contam
Eles pararam de procurar o "X-Factor". Hoje, nas reuniões de A&R (Artistas e Repertório), a primeira pergunta não é "ele canta bem?" ou "ela tem presença de palco?". A pergunta é: "Qual é a taxa de retenção nos stories?". Se você tem o carisma de uma porta, mas segura a audiência por 30 segundos, você é a nova aposta. O talento virou um acessório opcional.

A Performance Infinita

O que ninguém te conta sobre essa redefinição do status é o custo humano. O palco não termina quando as luzes se apagam. O camarim é um estúdio de conteúdo. O carro voltando para o hotel é um cenário de vlog. A vida privada foi privatizada pelo público.

Isso gera uma geração de artistas exaustos, que performam uma autenticidade fabricada. Eles precisam ser "reais" (mas não muito, ninguém quer ver a depressão feia, só a depressão estética). Precisam ser politizados (mas só dentro da janela de Overton aceitável pelo patrocinador). Precisam ser rebeldes (mas com a aprovação da diretriz da comunidade).

E o que sobra? Uma indústria de clones. Quando a validação digital dita a arte, a arte tende à média. O algoritmo odeia o risco. E sem risco, não existe rockstar. Existe apenas um influenciador com uma guitarra — ou um microfone, ou um par de tênis caros — implorando silenciosamente pelo seu like para sentir que existe.

Da próxima vez que você ver seu ídolo respondendo comentários no Instagram, não se sinta especial. Sinta pena. Ele está trabalhando no turno da noite da fábrica de atenção.

ÉC
Élise ChardonJournaliste

Snob ? Peut-être. Passionné ? Sûrement. Je trie le bon grain de l'ivraie culturelle avec une subjectivité assumée. Cinéma, musique, arts : je tranche.