Société

Alerta de Chuvas: A burocracia do pânico está nos afogando?

Seu celular vibra. Outro aviso vermelho. Lá fora, apenas garoa. Por que o excesso de notificações virou um escudo jurídico para o Estado e uma armadilha mortal para a sua percepção de risco.

MC
Myriam CohenJournaliste
26 février 2026 à 05:023 min de lecture
Alerta de Chuvas: A burocracia do pânico está nos afogando?

Pling. O som é pavloviano. Você olha para a tela bloqueada: "Defesa Civil: Alerta de chuvas intensas, risco de deslizamento, evite áreas de risco." Você olha pela janela. O céu está cinza, sim, mas a ameaça parece tão distante quanto a promessa de um político em ano eleitoral. Você bloqueia a tela e volta ao Instagram. O que acabou de acontecer? Você sobreviveu a uma catástrofe iminente? Não.

Você acabou de ser vítima da inflação do alerta.

Vivemos uma era curiosa onde a tecnologia meteorológica nunca foi tão precisa, mas a comunicação pública nunca foi tão ineficiente (e covarde). Adotei aqui meu chapéu de analista cético para dizer o que ninguém na prefeitura vai admitir: o sistema de alertas atual não foi desenhado apenas para salvar sua vida. Ele foi desenhado para salvar carreiras.

“Quando tudo é urgente, nada é urgente. O alerta vermelho constante transformou o medo legítimo em ruído de fundo.”

A lógica burocrática é implacável. Imagine que você é um gestor público. Se você não emitir um alerta e uma enxurrada levar um bairro, seu nome estará na lama (literalmente e metaforicamente). Inquéritos, manchetes, o fim. Agora, se você emitir um alerta "só por garantia" e cair apenas uma garoa fina? Ninguém liga. Você pecou pelo excesso de zelo. É seguro. É confortável.

O resultado? Uma enxurrada de notificações que, ironicamente, nos desarmam.

A Síndrome do Pastor Mentiroso 2.0

O fenômeno é conhecido na psicologia como "fadiga de alarme". É o mesmo princípio que faz enfermeiros em UTIs ignorarem bips constantes de monitores mal calibrados. Mas quando aplicado à gestão de desastres climáticos, o custo não é apenas irritação. É complacência fatal.

Quando o verdadeiro dilúvio chega — aquele que arrasta casas e reescreve a geografia de uma cidade — ele encontra uma população cética. "Ah, é só mais um SMS da Defesa Civil", pensamos, enquanto a água sobe. A burocracia, buscando se blindar juridicamente (emitindo avisos para qualquer nuvem mais carregada), acabou criando uma sociedade surda aos gritos de socorro reais.

A Lógica do EstadoA Lógica do Cidadão
"Melhor pecar pelo excesso do que pela omissão.""Se erraram os últimos 5, vão errar este também."
Alerta generalizado para toda a região metropolitana.Minha rua está seca. O sistema não funciona.
Responsabilidade transferida para o indivíduo.Sensação de abandono e desconfiança institucional.

Não estamos negando a mudança climática. Pelo contrário. É justamente porque os eventos extremos estão se tornando rotina que precisamos de precisão cirúrgica, não de spam governamental.

O que muda de verdade?

A tecnologia para resolver isso já existe. Chama-se nowcasting hiperlocal. Não quero saber se vai chover na "Zona Sul". Quero saber se a minha rua vai virar um rio nos próximos 15 minutos. Enquanto os órgãos oficiais continuarem tratando alertas de emergência como newsletters de marketing (disparando para toda a base para ver quem clica), continuaremos nos afogando. Primeiro na indiferença. Depois, na água.

MC
Myriam CohenJournaliste

Le pouls de la rue, les tendances de demain. Je raconte la société telle qu'elle est, pas telle qu'on voudrait qu'elle soit. Enquête sur le réel.