Sport

Arábia Saudita S.A.: O Xeque-Mate do Al Nassr é Real ou Apenas Ouro de Tolo?

Esqueça as camisas vendidas. Por trás do sorriso de Cristiano Ronaldo em Riade, há uma aposta trilionária que desafia a lógica financeira (e talvez a própria gravidade do mercado). O analista cético investiga.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste
25 février 2026 à 20:023 min de lecture
Arábia Saudita S.A.: O Xeque-Mate do Al Nassr é Real ou Apenas Ouro de Tolo?

Viram o sorriso de Cristiano Ronaldo? Aquele brilho nos dentes vale 200 milhões de euros por ano. Quando o Al Nassr anunciou a contratação do português, o mundo gritou "revolução". Mas, se baixarmos o volume da euforia e abrirmos as planilhas de Excel, a história ganha contornos bem menos românticos (e muito mais arriscados).

Não estamos vendo o nascimento de uma nova Premier League. Pelo menos, não ainda. Estamos assistindo ao maior experimento de distorção de mercado da história do esporte.

A Miragem dos Números

Vamos ser brutalmente honestos: economicamente, a conta não fecha. Nunca fechará. O modelo saudita não é sobre lucro operacional, venda de ingressos ou direitos de TV — que, diga-se de passagem, ainda são irrisórios comparados à Europa. É um projeto de Estado. O Fundo de Investimento Público (PIF) não comprou quatro clubes (Al Nassr, Al Hilal, Al Ittihad, Al Ahli) para vender camisas.

Eles compraram legitimidade geopolítica.

"O futebol na Arábia Saudita não é um negócio, é um outdoor de neon visível do espaço. A questão é: quanto tempo a lâmpada aguenta acesa sem queimar o fusível?"

Mas há um precedente perigoso que muitos fingem esquecer. Lembram-se da China em 2016? Oscar, Hulk, Tevez... Onde está a Superliga Chinesa hoje? Implodida em dívidas e irrelevância. A Arábia Saudita jura que é diferente, alegando uma base de fãs local real (o que é verdade, os sauditas amam futebol). Contudo, o modus operandi de inflacionar salários artificialmente cria uma bolha que, invariavelmente, estoura quando a torneira estatal fecha.

China 2016 vs. Arábia 2024: O Jogo dos 7 Erros

Para entender o ceticismo, precisamos colocar os dados lado a lado. A estratégia parece uma cópia carbono com esteróides.

CritérioSuperliga Chinesa (O Colapso)Saudi Pro League (A Aposta)
Origem do DinheiroEmpresas imobiliárias alavancadasFundo Soberano (PIF) - Petróleo
Perfil das ContrataçõesJogadores no auge/fim (Oscar, Tevez)Ícones globais + Auge (CR7, Mané, Veiga?)
SustentabilidadeNula (Dependia de regulação estatal)Questionável (Depende do preço do barril)

O Dano Colateral Invisível

O que ninguém está discutindo é o efeito dominó na classe média do futebol europeu. Quando o Al Nassr ou o Al Hilal oferecem salários astronômicos para jogadores medianos da Premier League ou estrelas da La Liga, eles elevam o piso salarial global.

Clubes como Benfica, Sevilla ou Ajax — históricos formadores — agora competem contra um poço sem fundo. Isso não democratiza o futebol; centraliza o poder. Se antes os jogadores sonhavam com a glória da Champions League, agora a calculadora fala mais alto (e quem pode culpá-los?).

Visão 2030 ou Miopia 2025?

A "nova ordem" prometida pode ser apenas um castelo de cartas dourado. A audiência global da Liga Saudita, tirando os clipes virais no TikTok, continua pífia. Estádios de clubes menores jogam para cadeiras vazias. A infraestrutura, fora dos quatro grandes, ainda é amadora.

O dinheiro saudita mudou o futebol? Sim, inflacionou-o. Mas transformou o Al Nassr num Real Madrid? A história e o prestígio são as únicas commodities que o dinheiro do petróleo ainda não conseguiu refinar. Por enquanto.

MB
Mehdi Ben ArfaJournaliste

Tactique, stats et mauvaise foi. Le sport se joue sur le terrain, mais se gagne dans les commentaires. Analyse du jeu, du vestiaire et des tribunes.