Arábia Saudita S.A.: O Xeque-Mate do Al Nassr é Real ou Apenas Ouro de Tolo?
Esqueça as camisas vendidas. Por trás do sorriso de Cristiano Ronaldo em Riade, há uma aposta trilionária que desafia a lógica financeira (e talvez a própria gravidade do mercado). O analista cético investiga.

Viram o sorriso de Cristiano Ronaldo? Aquele brilho nos dentes vale 200 milhões de euros por ano. Quando o Al Nassr anunciou a contratação do português, o mundo gritou "revolução". Mas, se baixarmos o volume da euforia e abrirmos as planilhas de Excel, a história ganha contornos bem menos românticos (e muito mais arriscados).
Não estamos vendo o nascimento de uma nova Premier League. Pelo menos, não ainda. Estamos assistindo ao maior experimento de distorção de mercado da história do esporte.
A Miragem dos Números
Vamos ser brutalmente honestos: economicamente, a conta não fecha. Nunca fechará. O modelo saudita não é sobre lucro operacional, venda de ingressos ou direitos de TV — que, diga-se de passagem, ainda são irrisórios comparados à Europa. É um projeto de Estado. O Fundo de Investimento Público (PIF) não comprou quatro clubes (Al Nassr, Al Hilal, Al Ittihad, Al Ahli) para vender camisas.
Eles compraram legitimidade geopolítica.
"O futebol na Arábia Saudita não é um negócio, é um outdoor de neon visível do espaço. A questão é: quanto tempo a lâmpada aguenta acesa sem queimar o fusível?"
Mas há um precedente perigoso que muitos fingem esquecer. Lembram-se da China em 2016? Oscar, Hulk, Tevez... Onde está a Superliga Chinesa hoje? Implodida em dívidas e irrelevância. A Arábia Saudita jura que é diferente, alegando uma base de fãs local real (o que é verdade, os sauditas amam futebol). Contudo, o modus operandi de inflacionar salários artificialmente cria uma bolha que, invariavelmente, estoura quando a torneira estatal fecha.
China 2016 vs. Arábia 2024: O Jogo dos 7 Erros
Para entender o ceticismo, precisamos colocar os dados lado a lado. A estratégia parece uma cópia carbono com esteróides.
| Critério | Superliga Chinesa (O Colapso) | Saudi Pro League (A Aposta) |
|---|---|---|
| Origem do Dinheiro | Empresas imobiliárias alavancadas | Fundo Soberano (PIF) - Petróleo |
| Perfil das Contratações | Jogadores no auge/fim (Oscar, Tevez) | Ícones globais + Auge (CR7, Mané, Veiga?) |
| Sustentabilidade | Nula (Dependia de regulação estatal) | Questionável (Depende do preço do barril) |
O Dano Colateral Invisível
O que ninguém está discutindo é o efeito dominó na classe média do futebol europeu. Quando o Al Nassr ou o Al Hilal oferecem salários astronômicos para jogadores medianos da Premier League ou estrelas da La Liga, eles elevam o piso salarial global.
Clubes como Benfica, Sevilla ou Ajax — históricos formadores — agora competem contra um poço sem fundo. Isso não democratiza o futebol; centraliza o poder. Se antes os jogadores sonhavam com a glória da Champions League, agora a calculadora fala mais alto (e quem pode culpá-los?).
Visão 2030 ou Miopia 2025?
A "nova ordem" prometida pode ser apenas um castelo de cartas dourado. A audiência global da Liga Saudita, tirando os clipes virais no TikTok, continua pífia. Estádios de clubes menores jogam para cadeiras vazias. A infraestrutura, fora dos quatro grandes, ainda é amadora.
O dinheiro saudita mudou o futebol? Sim, inflacionou-o. Mas transformou o Al Nassr num Real Madrid? A história e o prestígio são as únicas commodities que o dinheiro do petróleo ainda não conseguiu refinar. Por enquanto.


