Société

Dupla Sena: O imposto voluntário da esperança (e por que continuamos pagando)

Enquanto você confere os números com o coração na boca, a banca já ganhou. A matemática é cruel, mas a fé brasileira na 'fezinha' diz muito mais sobre nossa economia do que qualquer relatório do Banco Central.

MC
Myriam CohenJournaliste
15 janvier 2026 à 10:313 min de lecture
Dupla Sena: O imposto voluntário da esperança (e por que continuamos pagando)

Saiu o resultado. Mais uma vez, milhões de brasileiros pararam por um instante, bilhete na mão, respiração suspensa. A Dupla Sena promete o dobro de chances — dois sorteios pelo preço de um, dizem os publicitários da Caixa. Soa generoso, não? Mas vamos ser frios (alguém precisa ser): essa generosidade é, na verdade, um brilhante mecanismo de retenção de capital. O resultado numérico, seja ele qual for, é secundário. O verdadeiro fenômeno aqui é a persistência.

Você provavelmente não ganhou. Estatisticamente falando, é quase uma certeza absoluta. Mas por que voltamos à fila da lotérica na semana seguinte? (E não minta, você volta).

A matemática do desespero

Dizem que a loteria é um imposto sobre quem é ruim em matemática. Discordo. É um imposto sobre quem perdeu a fé na mobilidade social tradicional. Quando o trabalho duro não garante a compra da casa própria e a poupança rende migalhas, o acaso se torna a única estratégia de investimento viável para a grande massa. A Dupla Sena se posiciona nesse vácuo.

Ela vende uma ilusão estatística interessante: a probabilidade de ganhar na faixa principal é de 1 em 15.890.700. Parece muito? Na Mega-Sena é 1 em 50 milhões. A Dupla parece um negócio da China comparada à irmã mais rica. Mas a realidade é que 1 em 15 milhões ainda é, para fins práticos, zero.

A verdadeira mercadoria da Caixa não é o prêmio em dinheiro. É a dopamina barata vendida por R$ 2,50. É o direito de sonhar até as 20h do dia do sorteio.

Para colocar em perspectiva o tamanho do buraco em que jogamos nosso dinheiro suado, veja os dados frios que o marketing ignora:

EventoProbabilidade Aproximada
Ganhar na Dupla Sena (Sena)1 em 15.890.700
Ser atingido por um raio (Brasil)1 em 1.000.000
Nascer com 11 dedos1 em 500

O ópio dos endividados?

O que o resultado da Dupla Sena revela não são os números da sorte, mas o retrato de uma sociedade que aposta no milagre porque o planejamento falhou. Observe as filas das lotéricas em dias de prêmio acumulado. Não vemos investidores da Faria Lima. Vemos aposentados, trabalhadores informais, gente que vê naquelas dezenas a única saída de emergência de uma vida de boletos atrasados.

E o governo? Bem, o governo adora. Uma fatia gigantesca do que é arrecadado não volta para o prêmio. Vai para repasses sociais, esporte, cultura e segurança (teoricamente). Ou seja, o apostador está pagando duas vezes: paga seus impostos normais e depois paga o imposto da esperança na lotérica. É o sistema perfeito: tira-se dinheiro de quem tem menos, devolve-se migalhas para um ou dois sortudos, e o Estado fica com a parte do leão.

Então, conferiu seu bilhete? Se não ganhou, não se culpe. O jogo não foi desenhado para você vencer. Foi desenhado para você continuar jogando. Amanhã tem mais. E a esperança, essa sim, é a única coisa que nunca acumula; renova-se a cada volante preenchido.

MC
Myriam CohenJournaliste

Le pouls de la rue, les tendances de demain. Je raconte la société telle qu'elle est, pas telle qu'on voudrait qu'elle soit. Enquête sur le réel.