Société

Jogos de Ontem: A neurose matinal que une o Brasil (e explica nossa pressa)

Não é apenas sobre futebol. É sobre o medo de ficar de fora da conversa no café e a fragmentação insana do streaming que transformou torcedores em caçadores de highlights.

MC
Myriam CohenJournaliste
15 janvier 2026 à 11:053 min de lecture
Jogos de Ontem: A neurose matinal que une o Brasil (e explica nossa pressa)

São 06:15 da manhã. O ônibus que corta a Avenida Brasil, no Rio, ou a Radial Leste, em São Paulo, está envolto numa penumbra azulada. Não é o amanhecer; é o brilho coletivo de dezenas de telas de smartphone. O polegar desliza frenético, os olhos ainda remelentos buscam uma única informação vital para a sobrevivência social nas próximas horas. Ninguém está lendo sobre a inflação ou a nova crise diplomática. A busca, digitada com a pressa de quem acordou atrasado, é crua, direta, quase primitiva: "jogos de ontem".

Eu vi essa cena acontecer com o Cláudio, porteiro do meu prédio, e com o CEO da startup que visito ocasionalmente. A democracia do algoritmo é implacável.

Mas por que essa frase específica se tornou uma das queries mais consistentes do Google Brasil, superando muitas vezes celebridades e catástrofes? A resposta fácil seria "porque amamos futebol". A resposta real, contudo, é um pouco mais cínica (e fascinante).

"Não consumimos mais o jogo. Consumimos o alívio de saber o resultado e a munição para o meme. O futebol deixou de ser uma novela de 90 minutos para virar um TikTok de 15 segundos."

Essa busca desenfreada revela uma ansiedade estrutural. Antigamente, você sabia exatamente onde o jogo passava: na TV aberta, quarta e domingo. Hoje? A fragmentação do streaming transformou o ato de assistir a uma partida numa gincana humilhante. Está na Amazon? Na CazéTV? No Premiere? Na HBO Max? Ou naquele site pirata cheio de pop-ups de apostas duvidosas?

A maioria desiste. Dorme. E acorda com a culpa do torcedor ausente, tentando compensar a falta de onipresença com a onisciência do resumo matinal.

Essa mudança de comportamento criou dois tipos distintos de "animal" esportivo. A transformação é brutal:

O Torcedor Clássico (1990-2010)O Torcedor "Jogos de Ontem" (2025)
Sofria por 90 minutos + acréscimos.Sofre se o vídeo de "melhores momentos" tiver mais de 3 minutos.
Sabia a escalação do time reserva.Sabe o placar e quem perdeu o pênalti (para zoar no WhatsApp).
Debatia tática na mesa do bar.Compartilha o meme do erro grotesco antes do bom dia.
Fidelidade ao canal de TV.Fidelidade ao Wi-Fi que carregar mais rápido.

Percebe a nuance? A busca por "jogos de ontem" é um sintoma de FOMO (Fear of Missing Out) aplicado à paixão nacional. Você não precisa ter visto o gol antológico de bicicleta; você precisa ter a informação de que ele aconteceu para não ser o pária no grupo do trabalho. O futebol virou commodity de conversa, moeda social.

E há algo de melancólico nisso, não acha? Estamos terceirizando nossa emoção. Trocamos a experiência catártica, lenta e muitas vezes tediosa de um 0 a 0 arrastado, pela injeção rápida de dopamina dos gols editados. A busca revela que não temos mais tempo (ou paciência) para o processo; queremos apenas o desfecho.

Se o Brasil é o país do futebol, o Google Trends é o nosso divã. E ele diz que estamos ansiosos, apressados e desesperados para pertencer a uma tribo, mesmo que a gente só tenha chegado para a festa quando as luzes já estavam se apagando.

MC
Myriam CohenJournaliste

Le pouls de la rue, les tendances de demain. Je raconte la société telle qu'elle est, pas telle qu'on voudrait qu'elle soit. Enquête sur le réel.