Culture

Rainha de Bateria: O segredo que a Beija-Flor guarda (enquanto a Sapucaí se vende)

Esqueça os milhões de seguidores. Nos bastidores de Nilópolis, a coroa não é um acessório de marketing, é uma sentença de vida. Mas até quando a tradição aguenta o cheque das influencers?

ÉC
Élise ChardonJournaliste
18 février 2026 à 20:023 min de lecture
Rainha de Bateria: O segredo que a Beija-Flor guarda (enquanto a Sapucaí se vende)

Eu estava lá no dia em que a chave virou. Não na avenida, com as luzes cegando a todos nós, mas naquele canto escuro da quadra em Nilópolis, onde o suor tem cheiro de pólvora e feijoada. Quando Lorena Raissa, essa menina-prodígio que mal tinha saído da adolescência, assumiu o posto deixado pela lendária Raissa de Oliveira, muitos cochicharam nos corredores da Cidade do Samba. (Eles adoram cochichar, não é?).

Diziam que a era das "Rainhas da Comunidade" estava morta. Que sem uma atriz global ou uma influenciadora digital com o PIB de um pequeno país no Instagram, a bateria Soberana perderia relevância. Que erro crasso.

O que ninguém te conta sobre a Beija-Flor é que eles operam em uma moeda diferente. Enquanto escolas coirmãs — não citarei nomes, mas vocês viram quem alugou o posto para vender cosméticos — transformam a frente da bateria em outdoor, a Azul e Branco joga xadrez com a própria história.

"Ser Rainha na Beija-Flor não é sobre quantos likes você tem. É sobre quantas bolhas estouram no seu pé antes do sol nascer."

Lorena não foi escolhida; ela foi forjada. Eu vi os ensaios. Vi a pressão sobre uma garota de 15, 16 anos, agora já mãe e mulher feita aos 19 (o tempo voa quando o samba acelera), carregando o peso de substituir uma dinastia de 20 anos. E recentemente, quando ela "alfinetou" a invasão das influencers na Sapucaí, não foi ciúmes. Foi um grito de guerra de quem sabe que está numa espécie em extinção.

👀 O que realmente aconteceu na saída de Raissa de Oliveira?
Nos bastidores, a conversa é dura: a renovação não foi apenas estética. Havia uma necessidade interna de provar que a 'fábrica de rainhas' de Nilópolis ainda funcionava. Raissa de Oliveira saiu como lenda, mas a escola precisava de sangue novo para justificar sua narrativa de 'escola de comunidade' em uma era dominada pelo dinheiro externo. Foi uma aposta arriscada: trocar a estabilidade de uma ícone pelo potencial explosivo de uma novata.

Mas aqui entra o meu temor de insider. A conta fecha? A Beija-Flor resiste bravamente ao canto da sereia do marketing digital, mantendo uma menina que sambou grávida, que cresceu ali, no cimento queimado da quadra. É lindo. É purista. Mas o Carnaval moderno é uma besta faminta por engajamento.

A coroa de Lorena pesa porque ela não representa apenas a bateria; ela é a última fronteira entre o Carnaval Cultural e o Carnaval Tik-Tok. Se ela falhar, ou se a diretoria decidir que a tradição não paga as contas das alegorias faraônicas, a próxima rainha de Nilópolis pode muito bem ser escolhida pelo número de visualizações nos stories. E aí, meus amigos, o samba terá morrido um pouco mais.

Você acha que é exagero? Pergunte aos ritmistas se eles preferem tocar para quem sabe a bossa ou para quem sabe a pose. A resposta, garanto, não sai nos jornais.

ÉC
Élise ChardonJournaliste

Snob ? Peut-être. Passionné ? Sûrement. Je trie le bon grain de l'ivraie culturelle avec une subjectivité assumée. Cinéma, musique, arts : je tranche.