Sagrado e Profano: O dia em que Salvador lava a alma (e as escadarias)
Esqueça o Carnaval por um instante. A verdadeira maratona baiana não segue um trio elétrico, mas o cheiro de alfazema e o passo firme das baianas rumo à Colina Sagrada.

Começa muito antes do sol nascer. Às quatro da manhã, Dona Ivone já está de pé no bairro do Comércio. O ritual é meticuloso: a saia rodada engomada, o torço impecável na cabeça e as quartinhas com água de cheiro preparadas no dia anterior. Ela não é apenas uma senhora caminhando; ela é uma guardiã. Quando a multidão de branco toma as ruas da Cidade Baixa, o que se vê não é uma simples festa católica ou um rito de candomblé isolado. É o Brasil tentando se explicar.
A Lavagem do Bonfim é, talvez, o único momento do ano em que a complexidade teológica brasileira faz sentido visualmente.
A Diplomacia dos Altares
Para quem olha de fora, pode parecer confuso. Por que lavar a escadaria de uma igreja católica com rituais de matriz africana? A resposta mora na resistência histórica (e na genialidade da sobrevivência). Quando os escravizados eram proibidos de cultuar suas divindades, eles não pararam. Eles adaptaram. Oxalá, o pai de todos no panteão Iorubá, foi sincretizado com o Senhor do Bonfim. Ambos vestem branco. Ambos representam a paz e a criação.
Mas não se engane achando que é tudo uma coisa só. As hierarquias são respeitadas, e as tensões, embora sutis, existem.
👀 Quem é quem na Colina Sagrada?
Senhor do Bonfim: Na visão católica, é Jesus Cristo crucificado. A devoção veio de Portugal, trazida por um capitão de mar e guerra que sobreviveu a uma tempestade.
Oxalá: No Candomblé, é o Orixá maior, criador da humanidade. A sexta-feira é seu dia (por isso a tradição de vestir branco nesse dia na Bahia), mas a lavagem ocorre na quinta-feira, preparando o terreno sagrado.
O Termômetro do Poder
Se a fé move os fiéis, o medo move os políticos. A caminhada de 8 quilômetros entre a Igreja da Conceição da Praia e a Colina Sagrada tornou-se o maior teste de popularidade da Bahia. Não há marqueteiro que salve um candidato de uma vaia no Bonfim. É cruel, é cru e é real. O cortejo funciona como um vestibular eleitoral a céu aberto.
Ali, no meio do suor e do sol escaldante de janeiro, o profano se agarra ao sagrado como quem pede salvação — ou pelo menos reeleição. É fascinante observar como a liturgia religiosa abre espaço para a liturgia do poder, sem que uma anule a outra.
"Quem tem fé vai a pé. Quem não tem, vai de carro ou nem aparece, porque o Bonfim não perdoa fingimento." – Dito popular nas ruas do Comércio.
O que isso muda de verdade?
Muitos guias turísticos venderão a Lavagem como folclore. Um erro crasso. O impacto econômico em Salvador é brutal, movimentando uma cadeia que vai da vendedora de acarajé ao setor hoteleiro de luxo. Mas o impacto imaterial é o que sustenta a cidade.
A Lavagem do Bonfim funciona como um botão de "reset" anual para a psique soteropolitana. É o momento em que as águas de cheiro limpam não só a pedra, mas a carga pesada de um ano inteiro de desigualdades e lutas diárias. Sem esse dia, Salvador seria apenas uma cidade quente. Com ele, ela se reafirma como a Roma Negra, o epicentro onde a fé não se explica em livros, mas se sente na sola do pé gasto pelo asfalto quente.
Ao final do dia, quando as portas da igreja se fecham e as fitinhas coloridas balançam ao vento nas grades, fica a certeza: a festa não é para o santo. É para nós.
Snob ? Peut-être. Passionné ? Sûrement. Je trie le bon grain de l'ivraie culturelle avec une subjectivité assumée. Cinéma, musique, arts : je tranche.

